Operação da PF mira deputada do CE por descontos ilegais em aposentadorias via Aapen
PF mira deputada do CE por descontos ilegais em aposentadorias

Operação da Polícia Federal mira deputada cearense em esquema milionário de descontos ilegais

A Polícia Federal (PF) deflagrou nesta terça-feira (17) uma operação que tem como alvo a deputada federal Maria Gorete Pereira (MDB-CE), que passou a ser monitorada com tornozeleira eletrônica. A investigação apura descontos ilegais realizados pela Associação dos Aposentados e Pensionistas Nacional (Aapen), sediada em Fortaleza, no Ceará.

Esquema milionário com presidente 'laranja' analfabeta

No centro do caso está Francisca da Silva de Souza, uma idosa de 72 anos, analfabeta, viúva e pensionista do INSS que complementa sua renda com pequenos serviços de manicure na periferia de Fortaleza. Formalmente, ela presidia a Aapen, entidade que em maio de 2024 tinha quase 492 mil associados e descontava mensalidades diretamente das aposentadorias, movimentando milhões de reais mensais.

No entanto, conforme revelado pelo g1 no ano passado, Francisca processou a própria Aapen na Justiça, afirmando ter sido enganada e colocada no comando da entidade sem seu conhecimento. A Defensoria Pública do Ceará ajuizou ação apontando que a idosa havia sido "indevidamente inserida como dirigente de uma entidade da qual jamais participou ativamente".

"Resta evidente que não se trata de presidente ou administradora de qualquer associação, mas sim de uma hipervulnerável enganada por pessoas inescrupulosas, assumindo, em razão da sua falta de informação, a condição de 'laranja'", afirmou a Defensoria no processo.

Papel da deputada no esquema segundo a investigação

A decisão do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), que autorizou a operação, mostra que o esquema foi possível porque a deputada Gorete Pereira atuou como "articuladora política junto a órgãos públicos", recebendo em troca "valores por meio de interpostas pessoas e empresas de fachada".

"[A deputada] Utilizava influência política para viabilizar acordos com o INSS e manter contato direto com autoridades administrativas, bem como pressionava servidores públicos para acelerar processos", afirma a Polícia Federal em seu relatório.

A defesa da parlamentar nega todas as irregularidades e afirma que as informações da investigação "não refletem a realidade dos fatos".

Como a idosa foi enganada

Segundo a Defensoria Pública, Francisca foi abordada em 2023 por uma mulher chamada Liduína, que disse que ela tinha direito a um empréstimo. Essa mulher apresentou à idosa um grupo de advogados que a fizeram assinar documentos para receber o suposto benefício. Foi assim que ela se tornou presidente da Aapen sem saber.

Como responsável legal da entidade, a idosa começou a receber centenas de cartas de cobrança de pessoas lesadas e acumulou mais de 200 processos judiciais contra seu nome. Para comprovar que foi enganada, Francisca anexou ao processo trocas de mensagens e áudios com os advogados.

Em uma conversa de maio de 2025, a idosa se queixava das cobranças e dizia temer cancelamento do CPF. Um dos advogados a tranquilizava, afirmando que esse risco não existia.

Outros alvos e controle das associações

Além da deputada, a PF prendeu preventivamente a advogada Cecília Rodrigues da Mota, que foi presidente da Aapen antes de Francisca "assumir" o cargo no papel. Outro alvo foi o empresário Natjo de Lima Pinheiro.

Segundo a PF, "Natjo, juntamente com Cecília Rodrigues e Gorete Pereira, controlava diversas associações que serviam como instrumentos para as práticas dos crimes: AAPB, CAAP, AAPEN, PROBASP". A investigação aponta que formalmente essas entidades têm presidentes e diretorias próprias, mas na prática são apenas "laranjas" enquanto o trio mantinha controle real através de procurações, subordinados estrategicamente posicionados e controle absoluto dos recursos financeiros.

Entidade fechada e dificuldades judiciais

Em agosto do ano passado, o g1 esteve na antiga sede da Aapen em Fortaleza, que foi fechada em 28 de abril — três dias após a deflagração da Operação Sem Desconto. A entidade ocupava toda a cobertura de um edifício no bairro Aldeota, mas funcionários foram dispensados e a porta não tem mais identificação.

O fechamento das sedes das associações suspeitas tem dificultado a tramitação de ações judiciais contra elas. Em vários casos, a Justiça não consegue intimar as entidades em processos movidos por aposentados que pedem ressarcimento e indenização pelos descontos ilegais.

No ano passado, o governo federal criou um plano nacional de ressarcimento — criticado por advogados por não garantir pagamentos de indenizações. Antes disso, centenas de aposentados ingressaram com ações em tribunais estaduais. Muitos ganharam as causas, mas não receberam pagamentos porque os responsáveis pelas associações não foram localizados pela Justiça.