Engenheiro preso liderava esquema de fabricação de armas com impressoras 3D
A Polícia Militar desmantelou uma quadrilha especializada na produção de armamentos utilizando impressoras 3D, com negociações que se estendiam a compradores do exterior. O engenheiro Lucas Alexandre Flaneto de Queiroz, conhecido como Zé Carioca, foi identificado como o líder do grupo e preso em Rio das Pedras, no interior de São Paulo, nesta quinta-feira (12).
Manual detalhado permitia produção caseira de armas não rastreáveis
Segundo as investigações, Zé Carioca desenvolveu um manual com mais de 100 páginas que ensinava qualquer pessoa com conhecimento básico em impressão 3D a fabricar armas não rastreáveis em poucas semanas. O material utilizava componentes de fácil acesso e baixo custo, tornando a produção extremamente acessível.
O manual era acompanhado por um manifesto que defendia o porte irrestrito de armas e, conforme apurado pela polícia, chegou a ser traduzido para outros idiomas, ampliando seu alcance internacional.
Vendas pela internet e letalidade comprovada
O coronel da Polícia Militar de Piracicaba, Cleotheos Sabino de Souza Filho, explicou que as armas fabricadas eram comercializadas através da internet. Embora os dispositivos produzidos em impressoras 3D tenham uma limitação no número de disparos devido ao material plástico, sua letalidade não é reduzida.
"A quadrilha vendia armas até pela internet. Eles desenvolveram um projeto de armas, faziam as impressões em 3D, em polímeros plástico. Sabemos que esse indivíduo chegou a oferecer o armamento a outros países. Esse tipo de arma tem uma limitação de disparo por ser feita com plástico. Mas, é funcional, pode matar pessoas", afirmou o coronel.
Operação Shadowgun apreende arsenal em 11 estados
A ação policial, batizada de Operação Shadowgun, contou com o apoio da PM de Piracicaba e integrou uma investigação mais ampla da Polícia Federal no Rio de Janeiro. Foram cumpridos mandados de prisão e busca e apreensão em 11 estados brasileiros, com o epicentro das atividades localizado em um barracão em Rio das Pedras.
No local, os agentes apreenderam:
- Armas de diversos calibres fabricadas em impressoras 3D, incluindo pistolas, revólveres, espingardas e rifles
- Coletes balísticos e capacetes
- Munições, rádios, celulares e computadores
- Equipamentos eletrônicos utilizados na produção
Na região de Piracicaba, foram executados quatro mandados de prisão e oito de busca e apreensão. Um homem e uma mulher foram detidos, enquanto outros dois suspeitos permanecem foragidos.
Perfil do líder e métodos de atuação
Lucas Alexandre Flaneto de Queiroz é formado em engenharia com especialização em controle e automação. As armas eram produzidas em sua própria residência, utilizando um nome falso e máscara para publicar vídeos nas redes sociais com testes balísticos e orientações sobre montagem e uso dos armamentos.
Um dos presos possuía registro de Caçador, Atirador e Colecionador (CAC), mas as armas apreendidas não faziam parte de seu acervo legal. Os envolvidos responderão na Justiça pelos crimes de organização criminosa, lavagem de dinheiro e comércio ilegal de arma de fogo.
Rede de vendas abrangia 79 compradores em todo o país
A investigação revelou que o material produzido pela quadrilha foi negociado com 79 compradores entre 2021 e 2022, distribuídos por 11 estados brasileiros. Muitos dos clientes possuem antecedentes criminais, principalmente por tráfico de drogas e outros delitos graves.
A polícia investiga se o esquema abastecia o crime organizado, incluindo tráfico de drogas e milícias. Um dos compradores já está preso após ser flagrado com grande quantidade de armas e munição.
No Rio de Janeiro, foram identificados 10 compradores em cidades como São Francisco de Itabapoana, Araruama, São Pedro da Aldeia, Armação dos Búzios e na capital, nos bairros do Recreio dos Bandeirantes e Barra da Tijuca.
Diligências continuam em múltiplos estados
A operação previa inicialmente cinco mandados de prisão e 36 de busca e apreensão, com ações realizadas em:
- Bahia
- Espírito Santo
- Goiás
- Minas Gerais
- Pará
- Paraíba
- Rio de Janeiro
- Rio Grande do Sul
- Roraima
- Santa Catarina
- São Paulo
No interior paulista, além de Rio das Pedras, houve ações policiais em Piracicaba, Saltinho e Tambaú, na região central do estado. Todos os endereços investigados estão ligados a produtores, vendedores e compradores do material ilegal.
O comandante da PM destacou que as investigações continuam: "Acreditamos que tenham muito mais pessoas envolvidas no processo. Estamos com diligência em Ribeirão Preto também".
