Genro do prefeito de Manaus é apontado como intermediário em suposta compra de votos
Um laudo pericial da Polícia Federal (PF) aponta que Gabriel Alexandre da Silva Lima, genro do prefeito de Manaus, David Almeida, teria atuado como intermediador em uma suposta negociação de compra de votos com lideranças religiosas durante as eleições municipais de 2024. O documento, anexado ao inquérito nesta sexta-feira (13), analisa mensagens, áudios e arquivos encontrados em quatro celulares apreendidos em 2024 durante investigação sobre possível corrupção eleitoral na capital amazonense.
Conversas revelam pedidos de valores
Em um dos aparelhos, atribuído ao pastor Flaviano Negreiros, a perícia identificou conversas entre líderes religiosos e um contato salvo como "Gabriel Davi Almeida" em um grupo de WhatsApp. Segundo a PF, trata-se efetivamente do genro do prefeito. Os investigadores afirmam que há registros de mensagens diretas e áudios enviados a Gabriel, nos quais pastores tratam abertamente de valores e da mobilização de apoio político.
Um dos trechos mais reveladores da perícia mostra um pedido direto a Gabriel para o envio de R$ 80 mil. Em áudio transcrito no laudo, um pastor afirma: "Se o senhor pudesse enviar todo aquele valor, os oitenta mil, para nós já dividir com todo mundo, para todo mundo se animar." Para os investigadores, esta mensagem sugere claramente que o dinheiro seria distribuído entre pastores e obreiros com o objetivo específico de estimular apoio político.
Pagamentos em dois turnos eleitorais
De acordo com a perícia, o valor de R$ 80 mil teria relação com apoio político no segundo turno das eleições municipais de 2024. As mensagens analisadas também indicam que um pagamento teria ocorrido no primeiro turno, embora o valor não tenha sido especificado. A PF afirma que há conversas em que líderes religiosos cobram o pagamento restante que teria sido prometido por Gabriel.
Em um dos áudios analisados, um pastor declara: "Tem que ligar para o Gabriel para ver essa situação. Quem prometeu foi o Gabriel dar o restante do valor." Segundo a investigação, esta fala reforça significativamente a hipótese de negociação financeira em troca de apoio eleitoral.
Mobilização de lideranças religiosas
Outro aspecto revelado pela perícia mostra que Gabriel também teria solicitado apoio na divulgação da campanha. Em mensagem enviada em um grupo de pastores, um dos investigados afirma: "O Gabriel, genro do David Almeida, pediu para todos nós colocar o setenta no nosso WhatsApp, Facebook e Instagram." O número citado seria o número eleitoral do candidato apoiado nas eleições.
Para a Polícia Federal, esta mensagem sugere tentativa clara de mobilizar lideranças religiosas para ampliar a propaganda política entre os fiéis, utilizando as redes sociais e aplicativos de mensagem como ferramentas de campanha.
Relação próxima com igreja pentecostal
A perícia identificou contato frequente entre Gabriel e líderes da Igreja Pentecostal Unida do Brasil, especialmente com o pastor Flaviano Paes Negreiros, um dos investigados. Segundo o relatório:
- As conversas entre os dois começaram em 25 de agosto de 2024, antes do primeiro turno das eleições;
- Há registros de mensagens, áudios e até fotografias em que aparecem juntos;
- Flaviano convocou líderes religiosos para uma reunião com a presença de Gabriel em uma cafeteria na Zona Oeste de Manaus.
De acordo com a PF, nesta reunião teria sido discutido apoio eleitoral da igreja, quantidade de membros e possível valor a ser pago pela influência nos votos. Para os investigadores, estes elementos indicam proximidade e interlocução constante entre representantes da campanha e lideranças religiosas.
Operação policial e apreensões
A investigação sobre possível compra de votos envolvendo o prefeito David Almeida (Avante-AM) é conduzida pela Polícia Federal desde 2024. A operação policial ocorreu em 26 de outubro de 2024, véspera do segundo turno das eleições municipais.
Na denúncia enviada à PF, uma mensagem da direção da Igreja Pentecostal Unidos do Brasil convocou pastores que votam em Manaus a comparecerem ao minicentro de convenções do templo religioso, localizado no bairro Monte das Oliveiras, Zona Sul da capital. Este local é considerado reduto político de Almeida.
Durante a operação, em uma sala foram encontrados envelopes com dinheiro, cada um contendo R$ 200, totalizando R$ 21.650 em espécie. Segundo depoimentos dos pastores, o dinheiro encontrado fazia parte de R$ 38 mil recebidos na noite anterior de uma pessoa ligada à campanha de David Almeida, identificada apenas como "Eliezer" no processo.
Dois dirigentes da igreja foram presos em flagrante e liberados após pagamento de fiança de R$ 15 mil cada. Atualmente, eles respondem ao processo em liberdade, enquanto as investigações continuam avançando com as novas evidências apresentadas no laudo pericial.
A reportagem do g1 questionou a Secretaria Municipal de Comunicação sobre as informações contidas no inquérito e a relação do prefeito de Manaus e familiares nas investigações, mas até a atualização mais recente desta matéria não obteve resposta. As defesas de Gabriel Alexandre e Flaviano Negreiros também estão sendo procuradas para se manifestar sobre as acusações.
