Vorcaro declarou pagamento de R$ 68,6 milhões à empresa investigada por milícia
Vorcaro pagou R$ 68,6 mi à empresa ligada à milícia

Ex-banqueiro declarou à Receita pagamentos milionários à empresa investigada por ligação com milícia

Daniel Vorcaro declarou à Receita Federal ter realizado pagamentos no valor de R$ 68,66 milhões em 2023 para a Super Empreendimentos, empresa que está sob investigação da Polícia Federal por supostamente atuar como um canal para o ex-banqueiro financiar sua milícia privada e realizar pagamentos a agentes públicos. Os valores, segundo a declaração, foram destinados a quitar dívidas de Vorcaro com a Super, relacionadas à compra de imóveis e outros investimentos.

Empresa no centro da crise do Master e prisão de Vorcaro

A Super Empreendimentos ganhou destaque no noticiário sobre a crise do Banco Master após uma reportagem da Folha de S.Paulo revelar que a empresa era proprietária da casa de R$ 36 milhões utilizada por Vorcaro para receber políticos em Brasília. Ao determinar a prisão preventiva do ex-banqueiro no início de março, o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, destacou que a Super foi empregada para realizar "pagamentos ilícitos" ao grupo conhecido como "A Turma" pelos investigadores, que teria o objetivo de coagir e ameaçar desafetos de Vorcaro.

De acordo com as investigações da PF, a empresa também foi utilizada no "relacionamento ilícito" entre Vorcaro e dois ex-funcionários do Banco Central. A Super teve como diretor, entre 2021 e 2024, o pastor e cunhado de Vorcaro, Fabiano Zettel, que também foi preso na operação autorizada por Mendonça. Procuradas, as defesas de Vorcaro e Zettel optaram por não se manifestar sobre os pagamentos.

Detalhes dos pagamentos e transferências milionárias

Os dados fiscais sobre a Super Empreendimentos foram encaminhados à Comissão Parlamentar de Inquérito mista do INSS e obtidos pela Folha de S.Paulo. A declaração referente a 2023 especifica que Vorcaro quitou dívidas com a Super no valor de R$ 32,12 milhões pela aquisição de uma residência, além de R$ 31 milhões por três lotes em um condomínio de Nova Lima, em Minas Gerais. O ex-banqueiro também liquidou débitos de R$ 5,54 milhões referentes a investimentos em um fundo e em uma empresa de táxi aéreo.

Vorcaro ainda informou ao Fisco que, em 2022, obteve aproximadamente R$ 55 milhões em bens e outros direitos da Super. No ano seguinte, esses imóveis foram vendidos ou transferidos para sua ex-mulher durante a partilha de bens. Na declaração de 2024, o ex-banqueiro registrou a transferência para a Super de uma Range Rover Evoque avaliada em R$ 398,6 mil.

Decisão judicial e suspensão das atividades da empresa

Na mesma decisão que determinou a nova prisão de Vorcaro, o ministro Mendonça ordenou a suspensão das atividades da Super, entre outras empresas. O magistrado reproduziu trechos da investigação em que a PF apontou "graves indícios de recebimento mensal de vantagens indevidas" pelo ex-diretor de fiscalização do Banco Central Paulo Sérgio Neves de Souza e pelo servidor Belline Santana, ex-chefe do Departamento de Supervisão Bancária do BC. Ambos são investigados pelas fraudes do Banco Master.

Segundo a PF, os pagamentos ilícitos eram efetuados "principalmente, mas não de forma exclusiva, pela empresa Super Participações Empreendimentos S.A." A investigação policial, conforme trechos reproduzidos na decisão de Mendonça, ressalta que "esta é a mesma estrutura utilizada para os pagamentos ilícitos mensais para a 'Turma', com a diferença de que, nesse caso, os valores seguem da empresa Super Participações, para as empresas de Felipe Mourão, como é o caso da King Participações Imobiliárias Ltda".

Morte de suspeito e engenharia financeira desmontada

Felipe Mourão, suspeito de integrar a milícia de Vorcaro e apelidado de Sicário, faleceu no dia 6 de março. De acordo com informações da PF, Mourão tentou suicídio em uma cela da Superintendência da Polícia Federal de Minas Gerais. Ele foi socorrido e levado ao hospital, onde permaneceu internado até o óbito. As investigações indicam que a Super era uma peça fundamental da engenharia financeira montada para movimentar recursos desviados do Master.

Em nota enviada à Folha de S.Paulo em dezembro, a assessoria de imprensa de Vorcaro confirmou que Zettel era um dos sócios da Super, mas enfatizou que a relação entre Vorcaro e a empresa era "meramente comercial". Os pagamentos declarados à Receita Federal, no entanto, ampliam as suspeitas sobre o uso da empresa para operações ilícitas, reforçando as acusações de que a estrutura servia para financiar atividades criminosas e corromper agentes públicos.