Deputada realiza ato de blackface em plenário e defende posição sobre mulheres trans
A deputada estadual Fabiana Bolsonaro (PL) protagonizou uma cena de forte impacto durante sessão da Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp) nesta quarta-feira (18). Em meio a seu discurso, a parlamentar pintou deliberadamente sua pele de preto, utilizando a prática conhecida internacionalmente como "blackface", amplamente reconhecida como racista por remeter a estereótipos históricos utilizados para ridicularizar pessoas negras.
Justificativa controversa gera reações imediatas
Ao explicar seu ato, Fabiana Bolsonaro afirmou que a encenação tinha como objetivo argumentar que pessoas trans não são mulheres, mesmo que se maquiem ou adotem aparências femininas. "Eu, sendo uma pessoa branca, vivendo tudo o que eu vivi como uma pessoa branca, agora aos 52 anos, decido me maquiar, me travestir como uma pessoa negra", declarou a deputada durante a sessão, questionando se assim ela passaria a entender as dores do racismo.
A parlamentar prosseguiu fazendo uma comparação direta: "Não adianta me maquiar. Não adianta eu fingir algo. Eu não sei as dores que as mulheres negras sentiram. Mas agora eu não sou negra. Eu estou pintada de negra por fora. Eu não sei as dores da essência que essas pessoas tiveram".
Críticas e medidas disciplinares
A reação entre colegas parlamentares foi imediata e contundente. A deputada Ediane Maria (PSOL) anunciou que fará uma representação na Comissão de Ética da casa por quebra de decoro parlamentar e solicitará investigação no Ministério Público por racismo e transfobia.
Nas redes sociais, a transmissão ao vivo da sessão foi inundada por comentários críticos, com internautas destacando frases como "Racismo é crime", "Blackface é crime" e "Racismo não é liberdade de expressão".
Contexto político do discurso
O discurso da deputada Fabiana Bolsonaro fez referência direta à recente nomeação da deputada federal Érika Hilton para a presidência da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher da Câmara dos Deputados. "A mulher do ano não pode ser transexual. Isso está tirando a mulher que inventou a vacina. Alguém tirou o lugar dela para colocar uma transexual", afirmou a parlamentar.
Ela complementou: "Transexual tem que ser respeitado sim. Não quero que nenhum trans passe por situação de preconceito. Mas não quero que nenhum trans tire meu lugar. Como que a gente vai cuidar da endometriose, do parto, da amamentação, da menopausa, se a pessoa não tem um lugar de fala?".
Entendendo a gravidade do blackface
A prática do blackface tem origens históricas profundamente problemáticas. Estipula-se que tenha iniciado por volta de 1830, nos Estados Unidos, quando atores brancos pintavam os rostos de preto em espetáculos humorísticos, retratando pessoas negras com estereótipos extremamente negativos.
Conforme explica o professor da Unesp e ativista antirracista Juarez Xavier, "a origem da prática está diretamente atrelada à ridicularização de pessoas negras e tinha como finalidade a privação ao negro no exercício da cidadania". Ele destaca que essas representações criam "imagens de controle" que legitimam práticas de violência e negação de direitos.
No contexto brasileiro, a prática se popularizou especialmente durante o carnaval, mas especialistas alertam que ela perpetua representações negativas e desrespeitosas. "Dizer que esse [blackface] é um problema lá de fora é falacioso e mentiroso. No Brasil, se você pega toda a representação do negro ao longo do século 19, ela é totalmente negativa", afirma Juarez Xavier.
Repercussão e próximos passos
A deputada Ediane Maria foi enfática em suas declarações nas redes sociais: "Fabiana Bolsonaro passou de todos os limites e cometeu racismo no plenário. São 137 anos da escravidão e temos que presenciar uma mulher branca se pintando de preto para atacar a Erika Hilton. Isso é um crime em flagrante! É uma afronta à história deste país!".
O caso deve seguir para análise da Comissão de Ética da Assembleia Legislativa de São Paulo, enquanto o Ministério Público poderá ser acionado para investigar possíveis crimes de racismo e transfobia. A polêmica reacende debates sobre liberdade de expressão, direitos das minorias e os limites do discurso parlamentar.



