O prefeito do Recife, João Campos, se vê no centro de uma nova turbulência política. Após um pedido de impeachment, ele agora enfrenta uma tentativa de abertura de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) na Câmara de Vereadores da capital pernambucana. O objetivo da investigação é apurar uma nomeação considerada irregular para o cargo de procurador do município, em uma vaga reservada a pessoas com deficiência (PCD).
Os detalhes da acusação e a movimentação na Câmara
O pedido para instalação da CPI foi protocolado pelo vereador Thiago Medina, líder do PL na Casa, e já conta com nove assinaturas de parlamentares. São necessários 13 votos para que a comissão seja efetivamente criada, faltando, portanto, quatro adesões. Caso avance, a CPI terá a missão de investigar indícios de favorecimento indevido em um concurso público municipal.
O cerne da denúncia envolve a nomeação de Lucas Vieira da Silva para o cargo de procurador. O candidato, que inicialmente disputou apenas as vagas de ampla concorrência e ficou na 63ª posição, foi nomeado para uma vaga PCD. A nomeação, assinada pelo prefeito João Campos, foi publicada no Diário Oficial do Município em 23 de dezembro de 2025.
O caso ganhou contornos polêmicos porque, segundo a acusação, Lucas Vieira não possuía laudo de PCD quando realizou a prova do concurso, em 2022. Ele só solicitou a reclassificação mais de três anos depois, em 29 de maio de 2025. O pedido foi negado por três procuradoras concursadas do município em pareceres técnicos sucessivos. No entanto, a decisão foi revertida quando o caso chegou ao procurador-geral do município, Pedro Pontes, cargo comissionado indicado pelo próprio prefeito.
Reações políticas e contexto eleitoral
Nas redes sociais, João Campos classificou o pedido de impeachment, que abriu caminho para a CPI, como "oportunismo eleitoral". Em resposta, o vereador Thiago Medina rebateu as críticas e afirmou acreditar que conseguirá as quatro assinaturas restantes nos próximos dias.
A crise ocorre em um momento delicado para o político do PSB. João Campos é o quinto prefeito de capital com maior aprovação no país, com 64% de avaliação positiva, segundo o instituto AtlasIntel. Além disso, ele é o favorito nas pesquisas para o governo de Pernambuco em 2026, liderando com 53,1% das intenções de voto contra a atual governadora, Raquel Lyra (PSD), conforme levantamento da Paraná Pesquisas.
Procurada, a equipe do prefeito optou por não se manifestar sobre a tentativa de abertura da CPI. Fontes próximas a Campos demonstraram confiança de que nem o impeachment nem a CPI conseguirão as assinaturas necessárias para prosperar.
As consequências e as suspeitas de favorecimento
A nomeação irregular causou prejuízo a outro candidato que tinha direito à vaga PCD. Diante da repercussão negativa e da pressão popular, a gestão municipal decidiu revogar a nomeação de Lucas Vieira da Silva.
Os vereadores que apoiam a investigação, como Eduardo Moura (Novo), autor do pedido de impeachment, argumentam que o prefeito descumpriu o edital do concurso e infringiu várias leis. "Os atos atentam contra a probidade administrativa e contra o cumprimento das leis, o que configura crime de responsabilidade", justificou Moura.
O caso também levantou suspeitas de possível favorecimento. Lucas Vieira é filho de uma procuradora do Tribunal de Contas do Estado e de um juiz que atua na vara de crimes contra a administração pública do Recife. Curiosamente, em novembro de 2025, um mês antes da nomeação polêmica, esse mesmo juiz anulou os atos da Operação Barriga de Aluguel, que investigava a gestão de João Campos por suposto desvio de R$ 500 milhões.
O desfecho desta tentativa de CPI ainda é incerto, mas ela já se tornou um novo capítulo na intensa disputa política que antecede as eleições estaduais em Pernambuco, colocando sob os holofotes a gestão e as decisões do prefeito que lidera as pesquisas para o Palácio do Campo das Princesas.