A Polícia Civil do Rio de Janeiro afirma que, mesmo após quase três décadas de prisão, Marcinho VP continua a obter recursos ilícitos provenientes do tráfico de drogas e mantém influência significativa na hierarquia do Comando Vermelho (CV). De acordo com as investigações, os valores são administrados por seus familiares, que desfrutam dos montantes e atuam na lavagem e ocultação do dinheiro por meio de diversos mecanismos.
“O Marcinho VP angaria esse dinheiro ilícito do tráfico e a sua família usufrui, gerencia, lavando e ocultando esse dinheiro através de imóveis, comércios também”, declarou a delegada Iasminy Vergetti, da Delegacia de Repressão a Entorpecentes (DRE).
Operação Contenção
Nesta quarta-feira (29), a polícia deflagrou mais uma fase da Operação Contenção, que visa combater a expansão territorial do CV e a estrutura de lavagem de dinheiro da facção. Agentes da DRE cumpriram 12 mandados de prisão preventiva expedidos pela 1ª Vara Criminal Especializada em Crime Organizado da Capital. Entre os alvos estão chefes do CV, incluindo Marcinho VP, que já se encontrava preso.
Marcinho VP é pai de Mauro Nepomuceno, conhecido como Oruam, e de Lucas Santos Nepomuceno, também chamado de Lucca, e é casado com a empresária Márcia Gama. Os três são considerados foragidos. Até a última atualização, um homem havia sido preso: Carlos Alexandre Martins, apontado como operador financeiro do CV, encontrado no Morro do Adeus, no Complexo do Alemão. Com ele, foram apreendidos um carro e uma moto.
Foragidos
Oruam já era considerado foragido da Justiça desde fevereiro, devido a violações na tornozeleira eletrônica. Ele responde a processo por tentativas de homicídio após uma confusão com policiais na porta de sua casa, em julho do ano passado. Márcia havia sido alvo de prisão em março, na Operação Contenção Red Legacy, mas não foi encontrada. No início deste mês, a Justiça do Rio concedeu habeas corpus à mãe do cantor, e ela deixou de ser procurada.
Os agentes estiveram em dois endereços de Oruam: uma casa na Freguesia, em Jacarepaguá, na Zona Sudoeste, e uma mansão em Angra dos Reis, na Costa Verde. Os policiais revistaram os cômodos, mas o rapper não foi encontrado. As casas de Lucca, no Recreio dos Bandeirantes, e de Márcia, em Jacarepaguá, também foram vasculhadas, mas eles não estavam lá.
Braço financeiro do CV
A operação da DRE teve como alvo o braço financeiro do CV. Segundo a polícia, o faturamento do tráfico era repassado a operadores financeiros, que fragmentavam o dinheiro em contas de laranjas. A ação desta quarta-feira foi resultado da análise de informações extraídas do telefone de Márcia. Em uma conversa, Márcia pede a Oruam: “Vai no DC. Preciso pagar o cartão.” Segundo a polícia, DC é Edgar Alves de Andrade, o Doca ou Urso, um dos chefes da facção. Ela escreve: “Emprestado. Para mim. Pede 10.” A polícia interpreta como R$ 10 mil. Oruam, identificado como Preto, responde: “Vou lá.” Doca também foi alvo da operação e está foragido.
Outro mandado foi cumprido contra Marcinho VP, no presídio de segurança máxima em Campo Grande, no Mato Grosso do Sul.
Defesa de Márcia
O advogado de Márcia Nepomuceno afirmou que, há alguns anos, ela foi denunciada e teve prisão decretada pelas mesmas acusações. Ele acrescentou que a investigação foi bem feita e comprovou a licitude da vida patrimonial e financeira de Márcia. “Márcia é primária, não tem antecedentes, exerce atividade laborativa lícita e reside no mesmo lugar há anos”, disse o advogado Flávio Fernandes.
Lista de procurados
- Carlos Alexandre Martins da Silva – operador financeiro do CV, preso nesta quarta
- Ederson José Gonçalves Leite, o Sam da CDD – chefão do CV, foragido
- Edgar Alves de Andrade, o Doca ou Urso – chefão do CV, foragido
- Eduardo Fernandes de Oliveira, o 2D – chefão do CV, foragido
- Jeferson Lima Assim – procurado nesta quarta
- Lucas Santos Nepomuceno, o Lucca – irmão de Oruam, procurado
- Luciano Martiniano da Silva, o Pezão – chefão do CV, foragido
- Luiz Paulo Silva de Souza – operador financeiro do CV, procurado
- Márcia Gama dos Santos Nepomuceno – mulher de Marcinho VP, procurada
- Márcio dos Santos Nepomuceno, o Marcinho VP – chefão do CV, já preso
- Mauro Davi dos Santos Nepomuceno, o Oruam – foragido
- Wilton Rabello Quintanilha, o Abelha – chefão do CV, foragido
Outros diálogos e investigações
A operação desta quarta-feira é resultado de um ano de investigações baseadas em dados de dispositivos eletrônicos apreendidos e cruzamento de informações financeiras. A DRE afirma ter descoberto “um sistema estruturado de recebimento, pulverização e reinserção de valores ilícitos no circuito econômico formal”. “Recursos provenientes do tráfico eram repassados por lideranças da facção a operadores financeiros, que realizavam a fragmentação dos valores por meio de contas de terceiros, além de utilizá-los para pagamento de despesas, aquisição de bens e ocultação patrimonial”, detalhou a polícia.
A investigação também identificou diálogos entre Carlos Costa Neves, o Gardenal, um dos chefões do CV, e um miliciano. “As conversas reforçam a influência de Marcinho VP como liderança central da facção, mesmo após anos de encarceramento”, afirmou a DRE.
O que dizem as defesas
As defesas de Oruam, Lucca e do advogado preso Carlos Alexandre Martins disseram que não vão se manifestar por não terem acesso aos autos. O advogado Flávio Fernandes, que defende Márcia Gama, também afirmou não ter acesso aos autos. “Estamos tentando entender do que se trata essa nova operação.” O g1 tenta contato com as outras defesas.
Operação Contenção
A Operação Contenção é uma ofensiva estratégica do governo do estado para conter e atacar o avanço territorial do Comando Vermelho. O principal objetivo é desarticular a estrutura financeira, logística e operacional da organização criminosa, além de prender traficantes que atuam na região. Até o momento, foram mais de 300 capturados e 136 mortos em confronto. Foram apreendidas cerca de 470 armas, sendo 190 fuzis, e mais de 51 mil balas.



