Crime organizado movimenta R$ 348 bilhões anuais no Brasil, revela estudo inédito
Crime organizado movimenta R$ 348 bilhões anuais no Brasil

Crime organizado brasileiro atinge receita anual de R$ 348 bilhões, aponta pesquisa inédita

Um estudo inédito lançado em 2025 pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública revela números estonteantes sobre o crime organizado no Brasil. A pesquisa "Follow the Products: rastreamento de produtos e enfrentamento ao crime organizado no Brasil" estima que, desde 2022, a receita anual das organizações criminosas no país atinge aproximadamente R$ 348 bilhões. Segundo os pesquisadores, essa cifra representa apenas a parte conhecida e mensurada do problema, sendo considerada uma estimativa conservadora.

Falência da política de segurança focada nas favelas

Há mais de quarenta anos, o Brasil insiste em uma política hegemônica de segurança pública que escolheu um inimigo de classe claro e territórios específicos: a chamada "guerra às drogas", travada majoritariamente em favelas e periferias. A estratégia central não tem sido a implementação de oportunidades inclusivas para as populações empobrecidas, acompanhadas por um policiamento permanente, de proximidade e baseado em inteligência.

O que prevalece, ao contrário, é um ciclo vicioso de operações policiais incursivas, invasivas e subsequentemente evasivas. Essas ações, quase sempre espetaculosas, pontuais, bélicas e reativas, resultam em alta letalidade, violações de direitos dos moradores do entorno dos conflitos e uma desalentadora sensação de eterno recomeço.

Impacto devastador nas populações vulneráveis

Uma pesquisa do DataFolha encomendada pelo FBSP em 2025 revelou que impressionantes 28,5 milhões de pessoas foram impactadas por organizações criminais no bairro onde habitam. São vítimas de uma guerra que nunca teve como objetivo real protegê-las. Quando perdem a vida pela proximidade com o palco de confrontações, são tratadas desdenhosamente como "danos colaterais".

Dados do Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos da Universidade Federal Fluminense revelam que, entre 2007 e 2021, foram realizadas 17.929 operações policiais em favelas na região metropolitana do Rio de Janeiro. Dessas, 593 terminaram em chacinas, com um total de 2.374 mortos. A mesma pesquisa avaliou a eficiência da maior parte dessas operações, concluindo que apenas 1,7% podem ser consideradas eficientes em relação à motivação e consequências.

Mudança no perfil do crime organizado

O estudo do FBSP expõe uma mudança radical no perfil do crime organizado brasileiro. Embora o tráfico de cocaína ainda gere uma receita aproximada impressionante de R$ 15 bilhões ao ano, esse número é ofuscado pela grandeza dos novos mercados. A droga está muito longe de ser o principal negócio das organizações criminosas.

A pesquisa revela que apenas os crimes virtuais e os golpes envolvendo celulares já movimentam anualmente cerca de R$ 186 bilhões. Além disso, o estudo detalha a infiltração em mercados aparentemente lícitos, nos quais quatro segmentos somam uma receita anual aproximada de R$ 146,8 bilhões:

  • Combustíveis
  • Bebidas
  • Garimpo ilegal de ouro
  • Cigarros

A verdadeira estrutura do crime organizado

Enquanto o debate público brasileiro em torno da questão da segurança pública esbarra em uma cortina de fumaça que nos força a olhar apenas para o confronto armado nas vielas precarizadas, a verdadeira estrutura do crime opera nos andares superiores. Não há nenhuma liderança verdadeiramente importante do crime organizado morando em comunidades pobres.

A gestão de R$ 348 bilhões anuais não é feita da laje, mas sim de condomínios de luxo, escritórios suntuosos, empresas de fachada e paraísos fiscais. As armas que dominam as favelas não brotam no morro; em sua maior parte, são compradas ao peso de dólares e euros, à vista, nos Estados Unidos e na Europa, lavadas por escritórios de luxo e transportadas por rotas complexas de milhares de quilômetros.

Operações que miraram o coração financeiro do crime

Raramente o sistema de justiça criminal produz episódios como as recentes operações que miraram a lavagem de dinheiro e a logística sofisticada do crime no coração financeiro do país. Operações como Carbono Oculto, Quasar e Tank, que confluíram para a região da Faria Lima, na capital paulista, são eventos reveladores de uma "raiz invertida" do crime organizado.

Essas operações demonstram que, enquanto insistirmos em olhar apenas para baixo, focando exclusivamente no confronto territorial nas favelas, jamais daremos resposta ao enigma da criminalidade organizada. É necessário seguir o fluxo do dinheiro e dos produtos, investigando a lavagem de capitais, as rotas logísticas, os fornecedores de armas e os financiadores nos andares superiores da estrutura criminal.

Conclusão: a necessidade de uma nova abordagem

Os números expostos pela pesquisa do FBSP deveriam reorientar qualquer estratégia pública de segurança. A política majoritária de segurança pública no Brasil, há muito, vem sendo uma trágica e sangrenta distração. Ou seguimos, de fato, o fluxo do dinheiro e dos produtos, ou o crime, cada vez mais rico e infiltrado, continuará se espraiando, contaminando e corrompendo todos os segmentos sociais, especialmente os políticos.

Como alerta o estudo, o crime organizado cumprirá seu desígnio, já iniciado, de devorar nossas cidades e suas populações se não houver uma mudança radical na abordagem do Estado brasileiro. A falência da estratégia atual é inegável e medida em números: o crime organizado nunca esteve tão rico, tão disseminado, tão armado e com tanto domínio territorial.