Vídeo revela tentativas de enforcamento de 'Sicário' de Vorcaro na cela da PF em BH
Luiz Phillipi Mourão, conhecido como Sicário, tentou se enforcar duas vezes seguidas na carceragem da Polícia Federal em Belo Horizonte no dia de sua prisão, na última quarta-feira. Ele faleceu dois dias depois no hospital, após ser internado em estado grave e ter morte encefálica confirmada. O Fantástico obteve acesso exclusivo ao vídeo que registrou os últimos momentos de Mourão na cela, revelando detalhes chocantes do incidente.
Detalhes das imagens e resgate
As imagens mostram que Sicário estava sozinho quando foi ao banheiro e retornou com a camisa de manga comprida enrolada no pescoço, prendendo-a às grades da cela. Em seguida, ele tentou se enforcar duas vezes consecutivas. O superintendente da PF em Minas Gerais, Richard Murad, detalhou a operação de resgate: "Decorreram aproximadamente 10 minutos, no máximo. A equipe, assim que constatou a anomalia da situação, se deslocou imediatamente. Ele foi retirado da posição de enforcamento e acionados tanto o SAMU quanto uma equipe de pronto-socorro da própria Polícia Federal, que imediatamente iniciou o processo de reanimação. Conseguimos estabilizá-lo até a chegada da equipe do SAMU e a partir daí passamos aos cuidados da equipe de saúde do SAMU de Minas Gerais".
Murad acrescentou que os plantonistas têm outras atribuições além do monitoramento exclusivo das câmeras, mas garantiu que, no caso de Sicário, a atuação foi "extremamente diligente". A PF informou que colheu depoimentos de várias pessoas e que a investigação sobre o incidente segue em andamento, buscando esclarecer todas as circunstâncias envolvidas.
Relação com o banqueiro Daniel Vorcaro
Sicário havia sido preso horas antes, durante uma operação que apura supostas fraudes financeiras relacionadas ao Banco Master e ao banqueiro Daniel Vorcaro. De acordo com os investigadores, Mourão teria a função de monitorar adversários do banqueiro, constranger opositores e, em alguns casos, promover agressões físicas. O grupo também seria responsável por tentar obter informações sigilosas em sistemas restritos.
Mensagens entre Mourão e Vorcaro foram divulgadas em decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal André Mendonça. Em uma delas, Vorcaro afirma que queria agredir o jornalista Lauro Jardim, colunista do jornal O Globo. Segundo o ministro, a intenção seria "calar a voz da imprensa que ousasse emitir opinião contrária aos seus interesses privados". Nas mensagens, o banqueiro cogita simular um assalto para agredir o jornalista.
Investigações da Polícia Federal apontam que Mourão integrava um grupo informal chamado de "A Turma", liderado por Daniel Vorcaro, com atividades que incluíam intimidação e violência contra críticos e adversários.
Esquema investigado pelo Ministério Público
Antes mesmo das investigações relacionadas ao Banco Master, o Ministério Público de Minas Gerais já apurava um esquema envolvendo Mourão. Ele foi sócio da empresa Maximus Digital Fomento Mercantil Ltda., que prometia aos investidores rendimentos muito acima dos praticados no mercado financeiro. Segundo a promotora Janaina de Andrade Dauro, os contratos eram pouco claros e não especificavam exatamente onde o dinheiro seria investido.
Com o tempo, investidores começaram a relatar dificuldades para resgatar os valores aplicados. Advogados que representam vítimas afirmam que o grupo teria atraído pessoas de várias regiões do país. "Temos vítimas do Rio de Janeiro, Minas Gerais, Brasília, Belém do Pará e de diversos estados", disse um dos advogados. Muitos investidores eram pessoas de baixa renda que contraíram empréstimos para aplicar dinheiro na empresa.
Segundo o Ministério Público, entre junho de 2018 e julho de 2021, Mourão movimentou cerca de R$ 28 milhões em contas ligadas a empresas de fachada. A investigação também aponta que a organização teria obtido R$ 62 milhões em empréstimos bancários usando imóveis superavaliados como garantia. Propriedades que valiam entre R$ 400 mil e R$ 600 mil teriam sido avaliadas em até R$ 16 milhões ou R$ 19 milhões para viabilizar os empréstimos.
De acordo com as investigações, os imóveis pertenciam a uma empresa que teve como acionista Natália Vorcaro, irmã do banqueiro Daniel Vorcaro. Posteriormente, o banco que concedeu o empréstimo foi adquirido por Daniel Vorcaro e passou a se chamar Banco Master. Os irmãos Vorcaro não foram denunciados na ação do Ministério Público de Minas Gerais. Procurada, a defesa de Natália Vorcaro não comentou o caso.
Processo judicial e desfecho
No ano passado, durante a fase de instrução do processo sobre as fraudes financeiras, Mourão compareceu a uma audiência, mas optou por permanecer em silêncio. O advogado de Luiz Phillipi Mourão afirmou que ainda aguardava acesso aos autos do processo e que não teve tempo de discutir as acusações com o cliente devido ao desfecho trágico do caso. Ainda não há previsão para o julgamento dos outros dez réus denunciados na ação, que continuam sob investigação das autoridades.
O caso de Sicário revela uma trama complexa que envolve crime organizado, fraudes financeiras e violência, com ramificações que atingem figuras de destaque no cenário bancário nacional. As investigações prosseguem, buscando elucidar todas as conexões e responsabilidades envolvidas neste episódio que chocou o país.



