Soldado da PM foi agredida dentro do quartel-general por tenente-coronel, revelam depoimentos
Soldado da PM agredida dentro do quartel por tenente-coronel

Soldado da PM foi agredida dentro do quartel-general por tenente-coronel, revelam depoimentos

A soldado Gisele Alves Santana, de 32 anos, que foi morta com um tiro na cabeça no mês de fevereiro, teria sido agredida fisicamente dentro da sede do Comando-Geral da Polícia Militar de São Paulo pelo tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto, de 56 anos, conforme depoimentos de membros da corporação lotados naquela unidade. Neto, que era casado com a policial, está preso desde a semana passada sob a acusação de ter cometido o crime de feminicídio.

Relatos detalham agressões e comportamento obsessivo

Quatro policiais que trabalhavam diretamente com Gisele relataram que ficaram sabendo sobre agressões ou discussões graves envolvendo o casal dentro do quartel-general da PM. Os depoimentos, dados à Polícia Civil e que fazem parte do processo criminal sobre a morte da soldado, indicam que o comandante-geral da PM tinha ciência das agressões e chegou a conversar com a vítima. No entanto, na ficha funcional do tenente-coronel, não há qualquer indicação de que o acusado tenha sido investigado por esse motivo.

Dois depoimentos detalham o local onde a agressão ocorreu – num corredor que conecta o departamento onde Gisele trabalhava à reserva de armas do QG –, embora apresentem uma divergência na descrição da investida. Um deles descreve que o tenente pegou Gisele pelos braços e a pressionou contra a parede, enquanto outro menciona que ele teria levado a mão ao pescoço dela. Ambos afirmam que a agressão foi filmada por câmeras de segurança.

Banner largo do Pickt — app de listas de compras colaborativas para Telegram

O relato de agressão foi corroborado pelo ex-marido de Gisele, um metalúrgico de 39 anos que a conheceu na adolescência. Ele afirmou que ela havia comentado sobre a ocasião em que o tenente-coronel "foi até o trabalho dela e a 'chacoalhou' durante uma discussão, tendo sido contido pelos policiais que estavam no local".

Comportamento ciumento e falta de apuração interna

Todos os colegas de trabalho da soldado descrevem um comportamento obsessivo e extremamente ciumento de Neto. Ele aparecia no local de trabalho dela sem aviso prévio, sorrateiramente, e ouvia as conversas entre eles antes que sua presença fosse notada. Para isso, valia-se de sua alta patente, já que não havia ninguém no andar em que Gisele trabalhava com posto tão alto na hierarquia da PM.

Vários policiais afirmaram ainda ter presenciado outro caso de ciúmes descontrolado que o tenente-coronel protagonizou. Estavam todos reunidos num café no departamento quando uma sargento, que não conhecia Gisele, comentou: "realmente você é muito bonita, bem que ele falou". Neto então começou a perguntar insistentemente quem era o autor do comentário e, quando a sargento se retirou, o tenente-coronel a seguiu e teve de ser contido por Gisele e outros policiais.

Uma policial do DSA afirmou que, após essa crise de ciúmes, a própria Gisele pediu ao marido que deixasse de ir ao prédio do Comando-Geral. Ela disse que, mesmo assim, ele continuou indo ao local, mas parou de entrar na sala do departamento.

Resposta da corporação e dos ex-comandantes

A corporação teve dois comandantes no período – de dezembro de 2022 a junho de 2024 – em que os depoimentos apontam agressões contra Gisele: o coronel Ronaldo Miguel Vieira, cujo término da gestão coincide com as primeiras semanas da soldado na unidade, e o coronel Cássio Araújo de Freitas, que permaneceu no cargo durante quase todo o intervalo em que Neto teria praticado as violências relatadas.

Vieira disse que não se lembra de ter convivido com Neto e Gisele e, por isso, não comentaria o caso. Cássio negou que as agressões tenham sido reportadas a ele e afirmou que, caso tivessem chegado ao seu conhecimento, teria determinado a imediata abertura de um inquérito policial militar.

Já a Polícia Militar respondeu que todas as denúncias de assédio envolvendo Neto que chegaram à Corregedoria foram apuradas, permanecendo à disposição para receber novas informações, e que ainda há um procedimento em andamento.

Banner pós-artigo do Pickt — app de listas de compras colaborativas com ilustração familiar

Morte suspeita e defesa do acusado

Gisele foi morta com um tiro na cabeça no apartamento onde morava, no Brás, região central de São Paulo, no dia 18 de fevereiro. Na ocasião, Neto estava na residência e, ao comunicar a ocorrência, afirmou que a esposa havia cometido suicídio. O comportamento do marido, que teria contrariado uma ordem para que ele não tomasse banho, e indícios de alteração da cena do possível crime, além de eventuais inconsistências no relato do tenente-coronel, levaram o caso a ser tratado como morte suspeita.

Após a prisão de Neto, a defesa do tenente-coronel afirmou que a ordem da Justiça Militar foi ilegal, pois foi proferida por autoridade que não tem competência para julgar crimes comuns como feminicídio, e que houve divulgação de informações da vida privada de Neto "muitas vezes por meio de conteúdos descontextualizados, ocasionando exposição indevida e repercussões que atingem sua honra e dignidade".

A defesa de Neto também afirmou desconhecer os relatos de agressão dentro do quartel-general. O caso continua sob investigação, com a Polícia Civil analisando os depoimentos e as evidências coletadas para determinar as circunstâncias exatas da morte da soldado Gisele Alves Santana.