Polícia Civil do Rio investiga série de sequestros contra joalheiros em esquema conhecido como 'golpe do ouro'
A Polícia Civil do Rio de Janeiro está investigando uma série de emboscadas realizadas por traficantes contra funcionários de empresas que compram joias para revenda. O esquema criminoso, batizado de "golpe do ouro", tem feito vítimas em série na capital fluminense, com casos concentrados na região do Morro da Serrinha, em Madureira, Zona Norte do Rio.
Funcionário é atraído por falsa vendedora e sequestrado por traficantes
Uma das vítimas, que preferiu não se identificar por medo de represálias, trabalha para uma empresa especializada na compra de ouro. Sua rotina inclui visitas presenciais para avaliar joias oferecidas para venda. No dia 17 deste mês, a empresa recebeu uma mensagem de uma mulher que afirmava precisar vender algumas peças para custear tratamentos de saúde.
Horas depois, o funcionário foi ao encontro da suposta vendedora no local combinado: a Rua Lima Drummond, em Vaz Lobo, nas proximidades da comunidade da Serrinha. Ao chegar ao ponto marcado, no entanto, ele percebeu que tinha caído em uma armadilha.
"Chegando lá, fui abordado por quatro motos imediatamente. Já chegaram falando: 'tira o capacete, tira o capacete, é ele mesmo. É o cara do ouro'. E me levaram lá pra cima. Terror, terror", relatou a vítima em depoimento.
Três horas de cativeiro sob ameaça constante
Dentro da comunidade da Serrinha, o funcionário foi mantido amarrado e sob constante ameaça. Segundo seu relato, ele ficou cerca de três horas em cativeiro, dentro de um barraco coberto com telhas de amianto.
"Anoiteceu e eu ainda estava lá. Pensei: estão cavando a minha cova e aqui eu vou ficar. Fuzil, pistola na cara. 'Vai morrer' o tempo todo", contou o homem, ainda abalado pela experiência.
Durante o sequestro, os criminosos obrigaram o funcionário a realizar transferências bancárias, totalizando um prejuízo de R$ 37.900. Após ser liberado, ele descobriu que não foi um caso isolado.
Esquema criminoso já teria feito múltiplas vítimas
Um conhecido do funcionário também passou pelo mesmo golpe e chegou a ser agredido pelos criminosos. "Eu fui o sétimo ou o oitavo que já caiu no mesmo golpe", revelou a vítima, indicando que o esquema já teria feito múltiplas vítimas antes dele.
A Polícia Civil confirmou que investiga um grupo de traficantes da Serrinha suspeito de atrair vítimas simulando a venda de ouro. Alguns dos criminosos já foram identificados pelas autoridades.
Investigação envolve múltiplas delegacias e possível homicídio
Como muitas vítimas são mantidas em cativeiro por horas, agentes da 29ª DP (Madureira) estão trocando informações com a Delegacia Antissequestro (DAS). Além dos casos de extorsão e sequestro, a polícia também apura uma possível ligação do grupo com a morte de um motorista de aplicativo, ocorrida no dia 22 de março.
A vítima fatal foi Matheus Eduardo de Oliveira, de 24 anos, morador de Nilópolis, na Baixada Fluminense. Ele estava de carro na Rua Agrário Menezes, um dos acessos à Serrinha, quando, segundo testemunhas, percebeu a aproximação de homens armados.
Matheus tentou fugir, mas foi atacado e baleado no pescoço. Ele morreu no local. A Delegacia de Homicídios da Capital (DHC) investiga o caso separadamente, mas as autoridades avaliam possíveis conexões com o esquema do "golpe do ouro".
Trauma psicológico persiste após a libertação
A vítima do golpe do ouro relata que o trauma persiste mesmo após o fim do sequestro. "Muda completamente a forma de viver, de trabalhar. A minha sombra eu já desconfio dela. O terror psicológico que fica...", desabafou o homem, que ainda sofre com as consequências emocionais do episódio violento.
A polícia continua as investigações para identificar todos os envolvidos no esquema criminoso e evitar novas vítimas do "golpe do ouro" na região metropolitana do Rio de Janeiro.



