Pai de aluna é indiciado por intolerância religiosa após chamar PMs armados para escola em SP
A Polícia Civil de São Paulo indiciou formalmente um homem por intolerância religiosa após ele acionar a Polícia Militar para a Escola Municipal de Educação Infantil (EMEI) Antônio Bento, localizada na Zona Oeste da capital paulista. O motivo da denúncia foi um desenho feito por sua filha que retratava a orixá Iansã, divindade das religiões de matriz africana como o Candomblé e a Umbanda.
O episódio, que ocorreu no dia 11 de novembro do ano passado, ganhou repercussão após a chegada de doze policiais militares fortemente armados à instituição de ensino infantil. Um dos agentes portava uma metralhadora, causando constrangimento e medo entre funcionários e familiares de alunos presentes no local.
Detalhes da operação policial na escola infantil
Segundo relatos, o pai da criança – que também é policial militar da ativa – alegou que a escola estaria obrigando os alunos a terem "aula de religião africana". Em resposta à denúncia, os PMs circularam pelas dependências da EMEI Antônio Bento e interpelaram funcionários por aproximadamente vinte minutos.
Uma profissional da escola, que preferiu manter o anonimato, explicou aos policiais que a instituição trabalha com o "currículo antirracista, documento oficial da rede municipal", que inclui a apresentação de elementos da cultura afro-brasileira às crianças como parte da formação educacional.
Investigações em andamento e reações da comunidade
A Secretaria da Segurança Pública (SSP) informou que o inquérito policial sobre o pai foi concluído em fevereiro e já foi encaminhado à Justiça para as devidas providências. A reportagem não conseguiu localizar a defesa do indiciado para comentários sobre o caso.
Paralelamente, a atuação dos policiais que adentraram armados na escola infantil segue sob investigação através de um Inquérito Policial Militar. As imagens das câmeras corporais dos agentes estão sendo analisadas e depoimentos dos envolvidos estão sendo colhidos pela corregedoria.
A jornalista Ana Aragão, representante da Rede Butantã – que congrega instituições e entidades da região – relatou que o pai da aluna chegou a rasgar todos os desenhos que estavam expostos no mural da escola, trabalhos realizados pelos próprios estudantes. "Quem assediou foi o próprio comandante de área da PM, lamentavelmente. O fato causou muita indignação em toda a região", destacou Ana.
Manifestação de apoio à escola e repúdio à intolerância
Em resposta ao ocorrido, moradores da região elaboraram um abaixo-assinado em defesa da escola e dos profissionais da EMEI Antônio Bento. No documento, a comunidade manifesta "integral e irrestrito apoio" ao corpo docente e funcionários, além de expressar "profunda preocupação e indignação" com a ação policial.
Os signatários do documento afirmam que a escola cumpre adequadamente seu papel de promover diversidade cultural e formação cidadã, seguindo as diretrizes educacionais municipais. A denúncia aponta que os agentes policiais teriam orientado a comunidade escolar "de forma errônea e racista" ao classificar o trabalho pedagógico como inadequado.
"Repudiamos veementemente qualquer forma de intolerância religiosa, racismo ou discriminação, e defendemos o direito de todas as crianças a uma educação plural, inclusiva e livre de preconceitos", declara trecho do documento assinado pela comunidade.
Iansã, a divindade representada no desenho que originou a polêmica, é conhecida na mitologia afro-brasileira como a orixá guerreira dos ventos, raios e tempestades. Sua representação em atividades escolares faz parte do currículo que busca valorizar a cultura afro-brasileira nas instituições de ensino públicas.



