Julgamento histórico no Rio: três réus enfrentarão júri popular por morte de advogado em 2026
O III Tribunal do Júri da Capital definiu a data de 5 de março de 2026 para o julgamento de três indivíduos acusados de envolvimento no assassinato do advogado Rodrigo Marinho Crespo, ocorrido em 26 de fevereiro de 2024. A vítima, de 42 anos, foi morta a tiros na Avenida Marechal Câmara, no Centro do Rio, exatamente em frente ao escritório de advocacia do qual era sócio, em um crime que chocou a cidade e revelou conexões com o submundo das apostas online.
Os acusados e suas supostas participações no crime
Os três réus que serão submetidos ao júri popular são:
- Leandro Machado da Silva, conhecido como "Cara de Pedra": policial militar afastado do cargo, que, segundo as investigações da Delegacia de Homicídios da Capital, providenciou os veículos utilizados na execução do crime. Ele se entregou às autoridades poucos dias após o assassinato.
- Cezar Daniel Mondego de Souza, apelidado de "Russo": apontado como responsável por monitorar os movimentos da vítima antes do ataque fatal.
- Eduardo Sobreira de Moraes: indiciado por dirigir o carro usado para acompanhar Rodrigo Crespo, auxiliando Cezar no rastreamento que antecedeu o homicídio.
Os três foram formalmente denunciados pelo Ministério Público em abril de 2024, quando a Justiça aceitou a acusação e determinou o afastamento de Leandro Machado da Silva de suas funções como PM. As investigações apontam que os réus se reuniram antes e depois do crime, inclusive nas proximidades do batalhão onde Leandro estava lotado, sugerindo um planejamento meticuloso.
Motivação do crime e detalhes das investigações
De acordo com a Promotoria, o assassinato foi motivado por uma disputa relacionada a jogos de apostas online, possivelmente ligada a uma organização criminosa atuante nesse setor. O crime foi classificado como homicídio qualificado, com várias circunstâncias agravantes:
- Motivo torpe: vinculado à atuação de grupo criminoso em apostas virtuais.
- Recurso que dificultou a defesa da vítima: os tiros foram desferidos pelas costas de Rodrigo Crespo, caracterizando uma emboscada.
- Prática para assegurar a execução de outros delitos: o homicídio teria como objetivo garantir interesses de crimes anteriores.
- Emprego de arma de fogo de uso restrito: uma pistola calibre 9mm, que aumentou a letalidade do ataque.
As investigações revelaram que os criminosos já monitoravam a vítima desde 5 de outubro de 2023, quando anotações com as placas dos veículos de Crespo foram encontradas em celulares de um dos investigados, após ele comparecer a uma festa em Ipanema. O atirador que efetivamente disparou contra o advogado, no entanto, permanece não identificado pelas autoridades.
Como funcionará o julgamento no Tribunal do Júri
Crimes dolosos contra a vida, como este homicídio, são de competência do Tribunal do Júri, onde sete cidadãos comuns formam o Conselho de Sentença. O processo se divide em duas fases distintas:
Na primeira fase, o juiz analisa a existência de elementos suficientes para enviar o caso a julgamento popular, podendo pronunciar os réus, impronunciá-los, desclassificar o crime ou absolvê-los sumariamente. Na segunda fase, ocorre o julgamento em plenário, com a participação do magistrado e dos sete jurados sorteados entre um mínimo de 15 presentes.
Durante a sessão, serão ouvidas testemunhas de acusação e defesa, além de realizados os interrogatórios dos réus. Os debates contarão com uma hora e meia para a sustentação da acusação pelo Ministério Público e tempo igual para a defesa, seguidos de réplica e tréplica. Após os esclarecimentos finais, os jurados se reunirão em sala secreta para votar, com decisão por maioria. O juiz então profere a sentença com base no veredito do Conselho de Sentença.
Outros envolvidos e conexões com crimes relacionados
As investigações da Delegacia de Homicídios da Capital identificaram uma quarta pessoa como participante do crime: Ryan Patrick Barboza de Oliveira, que teria ajudado a monitorar os passos de Rodrigo Crespo, inclusive no dia do assassinato. Análises telefônicas mostraram que Ryan acompanhou a vítima no Centro da cidade até as 11h da manhã de 26 de fevereiro de 2024, sendo substituído posteriormente por Cezar e Eduardo. Ryan, porém, não será julgado nesta quinta-feira, pois foi preso por envolvimento em outro crime atribuído ao mesmo grupo: o assassinato do dono do bar Parada Obrigatória, Antônio Gaspaziane Mesquita Chaves.
Outro investigado com ligações ao caso é o bicheiro Adilson Oliveira Coutinho Filho, conhecido como Adilsinho, preso em 26 de fevereiro de 2024 em outras investigações. Em 9 de abril de 2024, policiais cumpriram mandados de busca e apreensão contra Adilsinho relacionados à morte de Crespo. Sua defesa, através do advogado Ricardo Braga, negou qualquer envolvimento, afirmando que ele "repudia a vinculação de seu nome aos referidos eventos" e confia na Justiça para comprovar sua inocência.
Os investigados pela morte do advogado – Machado, Mondego, Sobreira e Ryan – também foram indiciados por participação na execução do empresário Thiago Trigueiro Gomes, de 37 anos, em São Gonçalo, na Região Metropolitana do Rio, crime que pode estar ligado à atuação da máfia dos cigarros associada a Adilsinho. Este cenário complexo evidencia as ramificações criminosas que o julgamento de 2026 buscará esclarecer, trazendo à tona uma rede de violência e ilegalidade que assola a capital fluminense.



