Furto de vírus na Unicamp: PF investiga marido de pesquisadora e descarta risco à população
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) descartou a possibilidade de risco à saúde pública em relação ao furto de vírus de um laboratório com nível 3 de biossegurança da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), em Campinas, São Paulo. A pesquisadora Soledad Palameta Miller e seu marido, Michael Edward Miller, são investigados pela Polícia Federal (PF) pelo furto do material biológico.
Anvisa confirma participação e afasta emergência sanitária
Em nota divulgada nesta segunda-feira (30), a Anvisa confirmou que participou da ação de busca pelas amostras na universidade, realizada pela PF no dia 23 de março. No entanto, a agência informou que não pode comentar sobre o andamento das investigações, pois o inquérito corre em sigilo judicial. "Em que pese o fato de a Anvisa não ser a responsável pela fiscalização de laboratórios de pesquisa científica e experimental, os técnicos da agência não constataram, com base nas informações disponíveis até o momento, a hipótese de emergência de saúde em decorrência desse material", afirmou a Anvisa.
Investigações da Polícia Federal e possíveis motivações
A Polícia Federal investiga se a professora doutora Soledad e seu marido, o veterinário e doutorando Michael, tentaram vender as amostras biológicas. Embora ainda não haja elementos concretos sobre essa possível venda, a PF informou que investiga a hipótese. O casal é sócio na empresa Agrotrix Biotech Solutions, que atua na pesquisa e desenvolvimento experimental em ciências físicas e naturais.
Pelo menos 24 cepas diferentes de vírus foram levadas do Laboratório de Virologia do Instituto de Biologia (IB) para outros laboratórios dentro da universidade, incluindo estruturas da Faculdade de Engenharia de Alimentos (FEA), onde Soledad atuava. As amostras recuperadas incluíam vírus como dengue, chikungunya, zika, herpes, Epstein-Barr, coronavírus humano e 13 tipos de vírus que infectam animais, além de amostras dos vírus da gripe tipo A, como H1N1 e H3N2.
Recuperação das amostras e descarte de evidências
De acordo com a Polícia Federal, as amostras de vírus foram recuperadas em prédios da Unicamp, sem indícios de contaminação externa ou terrorismo biológico. A professora responde ao processo em liberdade provisória, enquanto a Unicamp conduz uma sindicância interna sobre o caso. Após a PF realizar buscas em sua residência no dia 21 de março, Soledad Miller retornou à Unicamp e descartou parte do material biológico dentro de um dos laboratórios, em uma tentativa de destruir evidências, conforme apurado pelas investigações.
MPF investiga possível falha da Unicamp
O Ministério Público Federal (MPF) instaurou um procedimento para apurar se a Unicamp falhou no controle e fiscalização de material biológico sensível, após o furto de vírus do laboratório NB-3. O objetivo é verificar a regularidade do acondicionamento, controle e fiscalização, bem como a eventual existência de falhas estruturais ou procedimentais que tenham contribuído para o desaparecimento das amostras, com potencial repercussão sobre a saúde pública. O MPF expediu ofício à Unicamp e aguarda resposta para possível abertura de Inquérito Civil.
Unicamp classifica caso como isolado
Em nota divulgada no domingo (29), a Unicamp afirmou que o furto de vírus foi um "caso isolado" e não envolveu organismos geneticamente modificados. A instituição ressaltou que, ao tomar conhecimento do caso, acionou imediatamente a Polícia Federal e a Anvisa, o que possibilitou a rápida localização e apreensão dos materiais subtraídos. A universidade também destacou que laboratórios NB-3 operam com protocolos rígidos de segurança e que o episódio resultou de circunstâncias atípicas sob investigação.
Cronologia e detalhes do furto
O desaparecimento das amostras foi notado inicialmente por uma pesquisadora em 13 de fevereiro de 2026. A Unicamp notificou a Polícia Federal em 16 de março, e o inquérito foi instaurado oficialmente em 20 de março. Registros de câmeras de segurança mostraram Michael Miller saindo do laboratório NB-3 com caixas em horários incomuns no final de fevereiro, o que levou a universidade a apontá-lo como suspeito do furto.
Soledad Miller é investigada por crimes como furto qualificado, fraude processual, perigo para a vida ou saúde de outrem e manutenção ou transporte irregular de organismos geneticamente modificados. A defesa da pesquisadora afirmou que não há materialidade de furto, sustentando que ela utilizava o laboratório do Instituto de Biologia por não dispor de estrutura própria para realizar suas pesquisas. O g1 não conseguiu contato com a defesa de Michael Edward Miller até a última atualização da reportagem.



