Governador exonera diretor-adjunto do Conjunto Penal de Eunápolis após delação de ex-diretora
Exoneração no presídio de Eunápolis após delação de fuga

O governador Jerônimo Rodrigues (PT) exonerou Sergio Vinicius Tanure dos Santos do cargo de diretor-adjunto do Conjunto Penal de Eunápolis, localizado no extremo sul da Bahia. A decisão foi publicada no Diário Oficial do Estado desta sexta-feira (24). Ernani Pereira Silva foi nomeado para assumir a vaga.

Contexto das mudanças

As alterações na direção do presídio ocorrem em meio à divulgação da delação de Joneuma Silva Neres, ex-diretora da unidade, realizada em janeiro deste ano e veiculada no último sábado (18). Durante a colaboração, Joneuma detalhou sua participação para facilitar a fuga de detentos do presídio. Em 12 de dezembro de 2024, 16 homens escaparam da unidade prisional. Ela afirmou que agiu a pedido do ex-deputado federal Uldurico Júnior (PSDB), com quem mantinha um relacionamento.

De acordo com Joneuma, o deputado negociou apoio na fuga por R$ 2 milhões, tendo recebido pelo menos um adiantamento de R$ 200 mil. Uldurico nega as acusações.

Banner largo do Pickt — app de listas de compras colaborativas para Telegram

Em agosto de 2025, o governador já havia exonerado Jorge Magno Alves do cargo de diretor do Conjunto Penal de Eunápolis. Fabrizio Gama e Narici foi nomeado para assumir a vaga.

Reuniões com traficantes

Joneuma Neres disse ao Ministério Público da Bahia (MP-BA) que o ex-deputado federal Uldurico Júnior teve pelo menos três encontros com traficantes no presídio. Em pelo menos uma dessas reuniões, ele teria pedido para ela retirar as algemas dos detentos. Ela também relatou que ele dizia ser cobrado por um "chefe", em referência ao ex-ministro Geddel Vieira Lima, então correligionário de Uldurico. À época, o ex-deputado era filiado ao MDB, partido que tem Geddel como um de seus líderes na Bahia.

Joneuma contou que Uldurico a encaminhava mensagens atribuindo autoria ao ex-ministro. "'Uldurico, eu pensei que ia fugir dois presos, quatro, mas me foge 16, aí você me lasca, cara!' Tipo assim, o Geddel dando uma bronca nele", explicou durante a delação. Geddel, que não é investigado no caso, negou qualquer envolvimento com o crime. "Ela diz coisas não sobre mim, mas que ele disse para ela. No fundo, ele estava vendendo meu nome descaradamente para acalmar ela, como se eu fosse protegê-lo. O inquérito da polícia mostra quem recebeu o suposto dinheiro. O pai dele, outros vereadores, com PIX, e não faz nenhuma referência a mim", disse Geddel em entrevista ao g1.

Indicação e primeiros contatos

Indicada por Uldurico para comandar o presídio de Eunápolis, Joneuma foi a primeira mulher a assumir o cargo na Bahia. Ela foi nomeada em 14 de março de 2024, iniciou no posto no dia 25 daquele mês e disse que já no dia seguinte recebeu a visita de Uldurico, acompanhado de outras pessoas. De acordo com ela, o ex-deputado solicitou uma conversa com os chefes de todas as facções que ali estavam custodiados. Ela afirmou que não acompanhou a reunião, que ocorreu a portas fechadas, e acrescentou que Uldurico pediu para que retirasse as algemas dos criminosos. Depois disso, ele teria retornado uma semana depois, em 1º de abril, para ter um novo encontro com os mesmos criminosos e, de novo, em maio ou junho. Na sequência, ela disse que Matheus da Paixão Brandão foi outras três vezes ao presídio se reunir com os chefes do tráfico. Conforme apurado pela TV Bahia, Matheus foi secretário parlamentar de Uldurico quando ele era deputado federal.

Banner pós-artigo do Pickt — app de listas de compras colaborativas com ilustração familiar

Relação com Dada

Segundo Joneuma, um dos criminosos com quem Uldurico se reunia era o traficante Ednaldo Pereira Souza, mais conhecido como Dada. Toda a fuga foi planejada com foco na saída dele. A ex-diretora relatou que, em 14 de outubro de 2024, após ter perdido a eleição para prefeito de Teixeira de Freitas, Uldurico compareceu à cidade de Eunápolis, pressionando-a para ter mais contato com Dada. A intenção dele seria conseguir recursos financeiros. De acordo com Joneuma, Uldurico afirmou que precisava de dinheiro com urgência para prestar contas e pagar determinadas pessoas com quem ele tinha dívidas. Foi em meio a esse cenário que o político teria negociado a fuga com Dada. Joneuma contou que os dois combinaram o pagamento de R$ 2 milhões, com o adiantamento de R$ 200 mil. Segundo ela, essa primeira parcela foi paga em espécie, com R$ 150 mil repassados em uma caixa de sapato e entregue nas mãos do pai do ex-deputado, o também político Uldurico Alves Pinto, e o restante em transferências via PIX.

Citação a ex-ministro

Joneuma disse ainda que, segundo Uldurico, metade do dinheiro da fuga seria para um "chefe", se referindo ao ex-ministro Geddel Vieira Lima. Ela relatou que Uldurico costumava encaminhar mensagens supostamente enviadas por Geddel, cobrando os valores. Procurado pelo g1, o político rechaçou as declarações, ressaltando que não possui envolvimento com o caso.

Mudanças no plano de fuga

A versão relatada por Joneuma aponta que o plano inicial era favorecer apenas a fuga de Dada, chefe do PCE, e Sirlon Risério Dias Silva, o Saguin, sub-chefe do bando. No entanto, eles e outros 14 detentos fugiram. Houve mudanças também na data para a execução do plano. O combinado seria que os dois saíssem do presídio no dia 31 de dezembro, quando Joneuma estaria de férias, mas Dada teria decidido antecipar a fuga, pois foi informado por um policial que haveria fiscalização no presídio no dia de Réveillon e ele seria transferido. Segundo Joneuma, Uldurico a questionou sobre as mudanças após a repercussão da fuga em massa. Foi nesse contexto que ele dizia receber mensagens de Geddel, reclamando da forma como os fatos se sucederam. Mais de um ano após a fuga, apenas um fugitivo foi recapturado e dois morreram em confronto com a polícia. Outros 13 seguem foragidos.

Operação no Vidigal

Na segunda-feira (20), a Polícia Civil do Rio de Janeiro fez uma operação na comunidade do Vidigal para recapturar Dada e os demais fugitivos. A ação assustou moradores com o intenso tiroteio e deixou cerca de 200 turistas ilhados no Morro Dois Irmãos durante a manhã. A polícia agiu em coordenação com o MP-BA, que monitorava Dada e soube que ele alugou uma mansão na área para curtir o feriadão de Tiradentes. O criminoso, no entanto, fugiu por uma passagem secreta, deixando amigos e parentes para trás. Dada conta com apoio do Comando Vermelho e se refugiou no Rio desde que escapou da prisão em Eunápolis. O saldo da operação foram três presos: Núbia Santos de Oliveira, esposa do traficante Wallas Souza Soares, o Patola, era procurada e apontada como controladora financeira da facção; Patrick Cesar Tobias Xavier, preso em flagrante com mochilas contendo drogas, roupas camufladas e rádio comunicador, conhecido como "Bart", de 38 anos, procurado por mandados de prisão de Goiás, considerado de alta periculosidade com atuação relevante no Comando Vermelho; e Christian Fernandes Rodrigues da Silva, preso em flagrante com um fuzil e uma pistola com a numeração raspada, natural de Minas Gerais.

O que dizem as defesas

A defesa de Joneuma é representada pela Defensoria Pública da Bahia (DPE-BA). Em nota, a instituição frisou que o acordo de colaboração premiada foi homologado pela Justiça e que ela segue em prisão domiciliar. A defesa de Uldurico Júnior informou que todas as alegações da delação são falsas, com intuito de se livrar da responsabilidade. "Uldurico jamais teve conhecimento de plano algum de fuga, nem recebeu dinheiro nenhum por tal fato, o que pode ser facilmente comprovado. Tanto a defesa quanto o acusado estão colaborando com a Justiça para que a verdade prevaleça", afirmou. Já a defesa do pai dele, Uldurico Alves Pinto, disse que aguarda acesso aos autos da delação para se manifestar sobre "as alegações unilaterais e desmontar a alegação absurda". Em entrevista ao g1, Geddel Vieira Lima também negou envolvimento com o caso. "Eu fui tomado de profunda indignação com esse negócio, de saber que a gente termina convivendo com criminoso e só descobre que a pessoa é criminosa depois que o crime aparece. Fui colega do pai e dos tios desse rapaz, ele foi candidato a prefeito de Teixeira de Freitas, o partido [MDB] tentou ajudar... Sempre tratei ele com carinho e fui surpreendido com a delação dessa mulher, que eu nunca vi, não sei quem é, nunca tive relação", ressaltou o político. "Ela diz coisas não sobre mim, mas que ele disse para ela. No fundo, ele estava vendendo meu nome descaradamente para acalmar ela, como se eu fosse protegê-lo. O inquérito da polícia mostra quem recebeu o suposto dinheiro. O pai dele, outros vereadores, com PIX, e não faz nenhuma referência a mim". Para Geddel, Uldurico é "irresponsável, inconsequente e leviano". Ele disse que se sentiu "apunhalado". "Trata-se de uma conversa entre dois criminosos. Ele certamente vendendo meu nome para tentar acalmar a cúmplice dele nesse crime horrível que cometeram", acusou. Em nota, a Secretaria de Administração Penitenciária e Ressocialização (Seap) informou que tem colaborado "de forma irrestrita" com todas as informações necessárias à investigação, desde que a fuga em massa ocorreu. O portal não conseguiu contato com a defesa de Matheus da Paixão Brandão.