Ex-comandante da PM-SP é citado em investigação sobre omissão e vínculos com PCC
Ex-chefe da PM-SP citado em investigação sobre PCC e omissão

Ex-comandante da PM-SP é alvo de investigação por suspeita de omissão em casos ligados ao PCC

Um depoimento do promotor de Justiça Lincoln Gakiya à Corregedoria da Polícia Militar de São Paulo trouxe novos detalhes sobre a suspeita de omissão e possível proteção por parte do então comandante-geral da corporação, tenente-coronel José Augusto Coutinho, envolvendo policiais militares ligados ao Primeiro Comando da Capital (PCC). As informações, reveladas inicialmente pela GloboNews e pelo g1, indicam que o coronel Coutinho já havia sido mencionado por um sargento em um inquérito que investiga a participação de PMs em escoltas ilegais a dirigentes de uma empresa de ônibus associada ao crime organizado na capital paulista.

Coutinho deixou o cargo na quarta-feira (15), e sua saída pode estar relacionada a estas e outras investigações nas quais ele é citado. Em nota, a defesa do coronel afirmou que não teve acesso aos autos do inquérito, mas esclareceu que "a mera citação em procedimento investigativo não implica, por si só, qualquer juízo de responsabilidade ou envolvimento em irregularidades", tratando-se de uma medida comum em apurações preliminares.

Depoimento do promotor Lincoln Gakiya detalha vazamentos e omissões

O promotor Lincoln Gakiya, integrante do Grupo de Atuação Especial e Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do Ministério Público, tem mais de 20 anos de atuação em investigações envolvendo o PCC e é considerado um dos principais investigadores da facção no Brasil. Ele foi ouvido como testemunha pela Corregedoria da PM no âmbito de um inquérito que apura a atuação de PMs em escoltas ilegais e conexões com a facção criminosa.

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Quando o depoimento foi coletado, em março deste ano, o tenente-coronel Coutinho ainda era o comandante-geral. As informações repassadas pelo promotor referem-se ao período em que o oficial era chefe das Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar (Rota), considerada tropa de elite da instituição. Gakiya detalhou vazamentos de operações do Gaeco, para as quais a Rota prestava apoio.

Em uma dessas operações, a Operação Sharks em 2020, o Ministério Público afirma ter reunido provas de que informações foram repassadas para a alta cúpula do PCC. O "número 01" da facção fora dos presídios na época, Marcos Roberto de Almeida, vulgo Tuta, apesar de estar monitorado, escapou e fugiu às pressas do apartamento onde o mandado foi cumprido. O mesmo ocorreu com outros alvos relevantes, gerando suspeitas de vazamento de informações.

Até então, o promotor afirma que, em mais de 35 anos de carreira e desde 2006 atuando com a Rota, nunca havia tido notícia de envolvimento de policiais da unidade com o PCC. Em outro episódio, a equipe de inteligência indicou que uma das reuniões entre Lincoln Gakiya e outros integrantes da Rota com um informante havia sido gravada e o material vendido por R$ 5 milhões a Tuta.

Gakiya comunicou os fatos ao então comandante da Rota, tenente-coronel Coutinho, afirmando que, em sua avaliação, o vazamento havia partido de policiais da instituição, embora não tenha conseguido identificar nominalmente os responsáveis. O promotor também o alertou sobre o fato de que policiais da unidade fariam "bicos" para empresas de ônibus ligadas ao PCC.

Confirmação em outras investigações e delação premiada

A informação sobre os "bicos" foi confirmada em outra investigação, um dos desdobramentos da Operação Fim de Linha. A atuação de PMs da Rota na escolta ilegal de criminosos também foi apontada no acordo de delação premiada de Antonio Vinicius Gritzbach, empresário conhecido como "delator do PCC", executado no Aeroporto Internacional de São Paulo em 2024.

Gritzbach afirmou que policiais da Rota eram responsáveis pela segurança de vários criminosos importantes do PCC, como Anselmo Becheli Santa Fausta (Cara Preta), Claudio Marcos de Almeida (Django), Silvio Luiz Ferreira (Cebola) e também do advogado Ahmed Hassan Saleh (Mude).

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O promotor afirmou que comunicou o tenente-coronel Coutinho e deixou à disposição os áudios entregues por testemunhas durante as investigações, para que ele pudesse tirar as próprias conclusões e tomar as medidas cabíveis. Segundo ofício do Ministério Público Militar ao procurador-geral de Justiça, Paulo Sérgio Oliveira e Costa, mesmo com conhecimento de possíveis delitos que poderiam ter sido cometidos por seus subordinados, não há informações de que o oficial tenha tomado medidas correcionais e investigativas.

No entendimento da Promotoria de Justiça Militar, o então comandante poderia ser enquadrado em crimes previstos no Código Penal Militar, como prevaricação.

Depoimento de sargento reforça suspeitas

O ex-comandante-geral da Polícia Militar de São Paulo, tenente-coronel José Augusto Coutinho, foi citado em outro depoimento anexado a um inquérito da Corregedoria da PM que investiga a participação de PMs na escolta ilegal a dirigentes de uma empresa de ônibus ligada ao PCC. O depoimento, revelado em primeira mão pelo jornal "O Globo" e obtido pela GloboNews, foi dado pelo sargento Alexandre Aleixo Romano Cezário.

Preso no dia 4 de fevereiro por fazer segurança privada para diretores da Transwolff, o sargento afirma que Coutinho, à época comandante da Rota, tentou convencê-lo a permanecer na tropa de elite. "Eu cheguei a conversar com o coronel Coutinho, major Coutinho na época. Falei assim: 'Ó chefe. É isso, isso, isso. Assim, assim, assado'. Ele falou assim: 'Romano, eu não posso obrigar você a sair da Rota. Por quê? Meu irmão faz bico até hoje. Meu pai sustentou a gente fazendo bico. Sabe que as coisas aí 'tá difícil', né? Porém, né, pelo que está aqui, tem bandido fazendo bico lá, meu, e você sabe como é que é", afirmou Romano Cezário.

O "bico" feito por PMs é considerado ilegal e proibido pela corporação. A Transwolff é investigada no âmbito da Operação Fim da Linha, deflagrada pelo Gaeco do Ministério Público em abril de 2024, que apura, além de lavagem de dinheiro, os crimes de fraude em licitações públicas e organização criminosa. De acordo com os promotores, a Transwolff agia para favorecer o PCC.

Na época da conversa citada pelo sargento, que teria ocorrido em 2020, Coutinho não havia sido promovido a tenente-coronel. Segundo Alexandre Aleixo Romano Cezário, ele havia sido cobrado pelo seu superior direto a deixar o trabalho de segurança privada da empresa de ônibus e foi dispensado da Rota, após decidir ficar no "bico". O sargento afirmou ainda à Corregedoria que fazia bico com outro colega da Rota e que teve apoio do então major Coutinho para continuar na tropa de elite da PM.

"(Coutinho) falou assim também: 'Você pensa se você vai realmente querer ir embora, porque você vai para a escola de sargento e depois não consigo trazer você de volta'. Eu falei: 'Não, chefe, eu estou indo embora e tal e pedi para ir para o 2º 19 (2º Companhia/19º Batalhão de Polícia Militar Metropolitano (19º BPM/M).'" Em depoimento, após ser preso, o sargento relatou que coronel Coutinho o transferiu para o batalhão que gostaria de atuar, mais perto da casa dele, o 19º Batalhão de Polícia Militar Metropolitano (19º BPM/M).

"O coronel Coutinho, muito honrado, viu que, tipo assim, 'mano, injustiça fazer isso com o cara. O cara está trampando'. Não tinha nada, chefe. Ele, com certeza, ele mexeu a mão e me mandou exatamente pra onde eu queria. Pro 19."

Esquema da Transwolff e detenções

O esquema envolvendo a Transwolff incluiria "laranjas" e "CNPJs fantasmas" para ocultar a origem dos recursos do crime organizado. Diante das suspeitas, a Prefeitura de São Paulo abriu, há dois anos, o processo de rescisão dos contratos com a empresa. A defesa da companhia sempre negou vínculo com o crime organizado.

Em fevereiro deste ano, três policiais foram detidos como desdobramento da investigação, entre eles o sargento Alexandre Aleixo Romano Cezário. Segundo o inquérito, os PMs fizeram segurança privada entre 2020 e 2024 para dirigentes da Transwolff. Outros depoimentos ouvidos pela Corregedoria da PM indicaram a suspeita de proteção de Coutinho ou inação em relação ao possível envolvimento de policiais com o PCC e no vazamento de informações sobre investigações sigilosas.

O ex-comandante geral da PM José Augusto Coutinho pediu para ir para a reserva depois de deixar o posto. A GloboNews não conseguiu contato com a defesa do sargento Alexandre Aleixo Romano Cezário.

Posicionamento da defesa e da PM

O escritório Fernando José da Costa Advogados, que representa o coronel, afirmou em nota que, "até o presente momento, não teve acesso aos autos do inquérito mencionado, razão pela qual não lhe foi oportunizado conhecer o teor integral das apurações ou os elementos que motivaram eventual referência ao seu nome".

"De todo modo, cumpre esclarecer que a mera citação em procedimento investigativo não implica, por si só, qualquer juízo de responsabilidade ou envolvimento em irregularidades, tratando-se de medida comum no âmbito de apurações preliminares, que frequentemente alcançam diversos agentes públicos sem que haja imputação formal de conduta ilícita". A nota afirma ainda que o "coronel reitera a absoluta lisura de sua atuação ao longo de mais de 34 anos de carreira na Polícia Militar do Estado de São Paulo".

Também em nota, a Polícia Militar de São Paulo afirmou que não comenta investigações em curso conduzidas por sua Corregedoria, "tendo em vista o sigilo legal que recai sobre os procedimentos de Polícia Judiciária Militar, conforme previsto na legislação penal-militar. A Instituição ressalta que eventuais apurações são conduzidas com rigor técnico, observância ao devido processo legal e respeito às garantias individuais".

Troca de comando e fim da 'era Derrite'

A saída de Coutinho do comando da Polícia Militar de São Paulo também marca o que fontes ouvidas pela GloboNews classificaram como "o fim da era Derrite" e o início de uma "nova geração de oficiais", em referência à gestão de Guilherme Derrite como secretário estadual de Segurança Pública (SSP-SP). Derrite deixou o cargo no final do ano passado e foi substituído por Nico Gonçalves.

Desde que o coronel da reserva Henguel Ricardo Pereira, ex-secretário-chefe da Casa Militar e coordenador da Defesa Civil, assumiu a secretaria-executiva da SSP, havia uma expectativa para a reorganização de cargos-chave da PM. No lugar do coronel Coutinho, assumiu a coronel Glauce Anselmo Cavalli. É a primeira vez na história da PM de São Paulo que uma mulher ocupa o cargo em quase 200 anos de corporação.

Como novo subcomandante, assume o coronel Mário Kitsuwa, atual comandante do Comando de Policiamento Metropolitano Nove, também formado em Psicologia. Nos últimos meses, a gestão de Tarcísio de Freitas (Republicanos) fez mudanças na Corregedoria da PM e no Setor de Inteligência da corporação. Nenhum dos nomes da chamada "alta cúpula da PM" vieram de indicações de Derrite, que retornou à Câmara de Deputados e deve concorrer a uma vaga no Senado nas eleições deste ano.