Condenação histórica: Justiça baiana sentencia réus pelo assassinato de Mãe Bernadete
Após quase três anos de investigações e um julgamento que mobilizou a atenção pública, a Justiça da Bahia emitiu uma decisão crucial no caso do assassinato da ialorixá e líder quilombola Mãe Bernadete. Nesta terça-feira (14), no Fórum Criminal Ruy Barbosa, em Salvador, dois homens foram condenados pelo crime brutal que chocou o estado em setembro de 2023.
Detalhes das penas e circunstâncias do crime
O julgamento, que se estendeu por dois dias, resultou em sentenças severas para os acusados. Arielson da Conceição dos Santos, apontado como mandante do assassinato, recebeu uma pena de 29 anos e 9 meses de prisão. Já Marílio dos Santos, identificado como executor do crime e que segue foragido, foi condenado a 40 anos, 5 meses e 22 dias de reclusão. Ambos foram considerados culpados por homicídio qualificado, com agravantes como motivo torpe, meio cruel e uso de arma de uso restrito.
O crime ocorreu no Quilombo Pitanga dos Palmares, localizado em Simões Filho, na Região Metropolitana de Salvador. Mãe Bernadete foi alvejada com 25 tiros dentro de sua própria residência, enquanto estava acompanhada por seus três netos. Os agressores, utilizando capacetes, invadiram o imóvel, removeram as crianças da sala e efetuaram os disparos fatais contra a líder religiosa.
Contexto investigativo e envolvimento de outros suspeitos
As investigações apontaram que o assassinato foi ordenado por um chefe do tráfico de drogas atuante na região, como retaliação pela oposição de Mãe Bernadete às atividades criminosas do grupo. No total, seis indivíduos são suspeitos de participação no episódio, mas apenas Arielson e Marílio foram submetidos a júri popular nesta fase inicial.
Entre os outros suspeitos, destacam-se Josevan Dionísio, preso em 2025 após fazer reféns; Sérgio Ferreira de Jesus, acusado de receptar celulares roubados e instigar o crime; Ydney Carlos dos Santos de Jesus, envolvido em discussões prévias com a vítima; e Carlos Conceição Santiago, suspeito de fornecer fuga e armazenar as armas utilizadas. As datas para os julgamentos desses indivíduos ainda não foram definidas.
Repercussões e ações de reparação
A Anistia Internacional, organização que acompanhou o caso de perto, emitiu uma nota reconhecendo a condenação como um passo relevante, mas enfatizando a necessidade de responsabilização completa e mudanças nas práticas institucionais para proteger defensores de direitos humanos. A entidade ressaltou que a memória de Mãe Bernadete exige não apenas punição, mas transformação social.
Em um desdobramento significativo, a família de Mãe Bernadete recebeu indenizações da União e do Governo da Bahia em 2025, por meio de um acordo administrativo. A ação judicial, que pedia R$ 11,8 milhões em danos morais, destacou falhas no programa de proteção à vítima, que estava sob custódia da Polícia Militar há pelo menos dois anos antes do crime. O valor final das indenizações foi mantido em sigilo pela Procuradoria Geral do Estado.
Este caso continua a ecoar como um símbolo da luta por justiça e da vulnerabilidade enfrentada por comunidades quilombolas e líderes religiosos no Brasil, reforçando apelos por maior segurança e efetividade nas políticas de proteção.



