Caso da PM morta: peritos se reúnem enquanto defesa mantém versão de suicídio
Caso da PM morta: peritos se reúnem em meio a investigação

Caso da PM morta: peritos se reúnem enquanto defesa mantém versão de suicídio

Peritos e investigadores se reuniram nesta quarta-feira (11) para tratar do caso da policial militar Gisele Alves Santana, morta com um tiro na cabeça no apartamento que dividia com o marido, o tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto, em São Paulo. Quase um mês após o ocorrido, em 18 de fevereiro, a defesa do oficial ainda sustenta a versão de que a soldado cometeu suicídio, enquanto a família e seu advogado acusam o coronel de feminicídio.

Defesa mantém posição sobre suicídio

O advogado Eugênio Malavasi, que defende o coronel Geraldo, afirmou neste sábado (14) que aguarda serenamente o desenrolar da apuração da Polícia Civil, com a juntada de todos os laudos, e externa confiança na palavra do cliente. "A defesa do tenente-coronel aguarda serenamente o desenrolar da apuração da Polícia Civil com a juntada de todos os laudos e externa a confiança na palavra do coronel: de que trata-se de suicídio", disse Malavasi. "E isso será comprovado de forma cristalina ao final da investigação".

Em contrapartida, o advogado José Miguel da Silva Júnior, que representa os interesses da família de Gisele, subiu o tom ao alegar que a morte da soldado foi consequência de um crime. "Eu não tenho dúvidas que ele [coronel Geraldo] matou ela [Gisele]. Mas cabe à polícia provar", declarou José Miguel, também neste sábado. O caso, registrado inicialmente como suicídio, passou a ser investigado como morte suspeita pela Polícia Civil, com a hipótese de feminicídio sendo apurada paralelamente.

Reconstituição e depoimentos

O coronel se afastou do trabalho na corporação após a morte de Gisele, mas participou da reconstituição do caso, realizada por peritos do Instituto de Criminalística no último dia 23 de fevereiro, na residência do casal no Brás, Centro da capital paulista. A defesa do oficial quer que ele volte a prestar depoimento no 8º Distrito Policial após a conclusão dos exames periciais restantes, incluindo o complementar do laudo necroscópico do Instituto Médico Legal.

Um médico do esporte que atendeu o casal dias antes da morte será indicado pela defesa do coronel para ser ouvido como testemunha, relatando que Geraldo e Gisele tinham o objetivo comum de ter uma vida mais saudável juntos. Na sexta-feira (13), o ex-marido de Gisele compareceu ao DP para depor, afirmando que a soldado "nunca pensou em cometer suicídio" e que a filha do casal, que morava com ela, ficará sob sua guarda. Ele também comentou que Geraldo não gostava da criança.

Dúvidas na versão inicial

Gisele tinha 32 anos e Geraldo 53. Foi o coronel quem deu a versão à Polícia Civil de que a esposa se suicidou após uma discussão, quando ele pediu a separação e foi tomar banho. Segundo ele, um minuto depois, Gisele teria pegado sua arma e disparado contra a própria cabeça, pelo lado direito, sem que ele visse. A família da soldado, no entanto, contestou a hipótese de suicídio, apresentando relatos de que Gisele vivia uma relação tóxica com o coronel.

Laudos periciais reforçaram as dúvidas sobre a versão inicial. Exames apontaram marcas de unhas e arranhões no pescoço da policial, além de lesões contundentes no rosto e sinais de disparo à queima-roupa. Agentes que atenderam a ocorrência estranharam o fato de a arma que matou Gisele estar ainda em sua mão, algo incomum em casos de suicídio. Outros pontos levantaram suspeitas: Geraldo disse que tinha ido tomar banho, mas estava com o corpo seco quando as autoridades chegaram, e telefonou para um desembargador amigo, que foi ao local, registrado por câmeras do prédio.

Laudos periciais e investigações paralelas

A investigação analisa os laudos produzidos pela Polícia Técnico-Científica. Já concluídos incluem:

  • Laudo necroscópico: causa da morte por traumatismo decorrente de disparo encostado do lado direito da cabeça, com lesões no rosto e pescoço compatíveis com pressão digital e marcas de unhas.
  • Laudo residuográfico: não detectou pólvora nas mãos do coronel ou de Gisele, gerando estranheza na hipótese de suicídio.
  • Laudo da trajetória do tiro: de baixo para cima.

Ainda pendentes estão o laudo toxicológico, que determinará se Gisele consumiu alguma substância, e o laudo do local da morte, com registros fotográficos da posição do corpo. Peritos adiantaram que encontraram marcas de sangue no banheiro, o que causou estranheza, já que Gisele foi encontrada morta em outro cômodo.

Paralelamente à apuração da Polícia Civil, a Polícia Militar instaurou um Inquérito Policial Militar após receber denúncias anônimas relatando que o casal vivia uma relação marcada por ameaças, perseguição e instabilidade emocional atribuídas ao tenente-coronel. A Justiça determinou a redistribuição do caso para a Vara do Júri, por entender que há indícios de crime doloso contra a vida, categoria que inclui feminicídio. As investigações continuam em andamento, com a delegacia aguardando resultados complementares para concluir o inquérito.