Roubo meticuloso em biblioteca paulistana expõe falhas de segurança
Um assalto minuciosamente planejado resultou no desaparecimento de treze obras de arte consideradas insubstituíveis da Biblioteca Mário de Andrade, localizada no coração de São Paulo. O crime, executado em poucos minutos no dia 7 de dezembro, envolveu estratégias elaboradas para despistar as autoridades, incluindo a troca de roupas por um dos suspeitos em três ocasiões distintas.
Planejamento detalhado antecedeu ação criminosa
Imagens de câmeras de segurança revelam que um dos indivíduos visitou o local aproximadamente um mês antes do roubo, realizando um reconhecimento meticuloso das instalações. Na data do crime, os ladrões adentraram o espaço fingindo ser visitantes interessados em arte, enquanto carregavam em uma mochila um martelo e uma arma de fogo.
A vigilante da biblioteca relatou ter sido abordada diretamente por um dos suspeitos, que anunciou o assalto e a obrigou a acompanhá-lo para dentro do prédio. Com a funcionária dominada e os frequentadores – incluindo um casal de idosos – sob controle, os criminosos iniciaram a retirada das obras expostas.
Execução rápida e fuga conturbada
Uma das vitrines foi quebrada quando um suspeito subiu sobre a estrutura de vidro e pulou para estilhaçá-la. As gravuras foram então removidas das molduras e colocadas em sacolas. A ação dentro da biblioteca foi extremamente rápida, permitindo que os ladrões saíssem caminhando normalmente pela porta principal antes que os seguranças percebessem o ocorrido.
Os dois homens seguiram para um veículo estacionado nas proximidades, mas a fuga encontrou um obstáculo inesperado: o carro apresentou uma pane elétrica a poucos metros do local do crime. Forçados a abandonar o veículo, os assaltantes transportaram parte das obras a pé, deixando alguns quadros na rua por incapacidade de carregar todo o material.
Mudanças de roupa e participação de terceiros
Imagens de segurança mostram que Gabriel, apontado como organizador do crime, caminhou até o prédio onde residia, a menos de dois quilômetros da biblioteca, carregando as gravuras. No elevador, ele cruzou com moradores e até acenou para uma criança. Posteriormente, já com roupas diferentes, ele saiu novamente para encontrar-se com seu comparsa.
Os dois retornaram ao local onde parte das obras havia sido deixada e começaram a retirar as gravuras das molduras, quebrando o vidro no chão da rua. As peças foram enroladas como pergaminhos para facilitar o transporte. A investigação identificou um terceiro participante: Luís, conhecido como "Magrão", que teria ajudado a remover as obras das molduras e possui ligação com uma facção criminosa.
Identificação dos suspeitos e situação atual
Os investigadores identificaram os principais envolvidos como Felipe, conhecido pelos apelidos "Tapete" ou "Sujinho", e Gabriel, considerado o planejador do roubo. Horas após o crime, câmeras registraram a entrada de Cícera, companheira de Gabriel, no prédio onde ele morava. Ela saiu minutos depois carregando duas sacolas que poderiam conter as gravuras, foi detida e posteriormente liberada, mas indiciada por receptação.
Felipe foi localizado e preso no dia seguinte ao crime, assim como Luís. Gabriel, no entanto, permanece foragido e foi visto pela última vez em imagens do metrô após receber uma sacola que poderia conter as obras. Seu nome consta atualmente em listas de procurados internacionais.
Impacto cultural e financeiro significativo
As treze obras roubadas, atribuídas a artistas renomados como Portinari e Matisse, ainda não foram recuperadas. O prejuízo financeiro foi estimado entre R$ 1,2 milhão e R$ 1,3 milhão, mas investigadores ressaltam que o impacto cultural é ainda mais profundo. As peças representam décadas da história da arte e da cultura brasileira, tornando sua perda particularmente devastadora para o patrimônio nacional.
A prefeitura informou que, na data em que Gabriel retornou ao prédio onde morava, ainda não havia ordem judicial para sua identificação por meio do sistema de câmeras inteligentes da cidade. Posteriormente, a Justiça expediu mandado de prisão preventiva, intensificando a busca pelo principal suspeito deste elaborado roubo ao patrimônio cultural paulistano.



