EUA consideram CV e PCC ameaças à segurança regional e estudam classificação como terroristas
EUA veem CV e PCC como ameaças e avaliam rótulo terrorista

Governo dos Estados Unidos avalia classificar facções brasileiras como terroristas

O governo do presidente Donald Trump considera que as facções criminosas brasileiras Comando Vermelho (CV) e Primeiro Comando da Capital (PCC) representam ameaças significativas à segurança regional. A avaliação se baseia no envolvimento desses grupos com o tráfico de drogas, a violência e atividades criminosas transnacionais, conforme declarou um porta-voz do Departamento de Estado dos EUA.

Classificação como terroristas em estudo

De acordo com informações divulgadas, Washington já decidiu classificar as facções como organizações terroristas. Em resposta à Folha de S.Paulo, o Departamento de Estado não descartou a possibilidade, mas afirmou que não antecipa designações específicas ou deliberações relacionadas a essas medidas. "Estamos plenamente comprometidos em tomar as medidas apropriadas contra grupos estrangeiros que se envolvam em atividades terroristas", declarou a pasta.

Esforços do governo Lula para evitar a classificação

O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) trabalha ativamente para evitar essa classificação, que vem sendo estudada desde o ano passado. Uma autoridade brasileira, que se encontrou com integrantes do governo Trump, relatou que os americanos estiveram no Brasil no ano passado para coletar informações sobre as facções. Segundo essa fonte, os representantes dos EUA não deram espaço para o Brasil apresentar sua interpretação sobre terrorismo e solicitaram detalhes sobre o funcionamento dos grupos criminosos.

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Por isso, a possível mudança na classificação não é vista como uma surpresa na gestão Lula. Nos Estados Unidos, três funcionários da diplomacia brasileira, que solicitaram anonimato, confirmaram que, apesar da presença de integrantes das facções em território americano, o foco principal dos criminosos é a lavagem de dinheiro, embora haja registros de tráfico de drogas nos EUA.

Presença nos Estados Unidos e diálogo político

Os estados da Flórida e Massachusetts concentram a maior presença de membros do CV e do PCC, coincidindo com as áreas com maior população brasileira nos Estados Unidos. O presidente Lula expressou, nas últimas semanas, a intenção de visitar Trump em Washington, embora ainda não haja data definida. Espera-se que o tema da classificação das facções seja debatido nesse encontro.

Lula tem afirmado repetidamente que deseja negociar com o governo americano um projeto apresentado ao Departamento de Estado para combater o crime organizado em parceria. No entanto, uma pessoa ligada ao governo dos EUA revelou que Washington recusou a proposta porque ela classifica as facções como narcoterroristas.

Pressão política e pedidos de classificação

Apesar dos esforços do governo federal brasileiro, no ano passado, parlamentares e governadores de direita solicitaram ao governo Trump a classificação do Comando Vermelho como grupo terrorista. O governo do Rio de Janeiro, liderado por Cláudio Castro (PL), chegou a enviar um documento formal com esse pedido para Washington. A facção tem suas origens no estado do Rio de Janeiro.

Impacto limitado e riscos da classificação

Segundo Douglas Farah, especialista em crime transnacional que assessorou o Departamento de Estado durante os governos de Barack Obama, Joe Biden e o primeiro mandato de Donald Trump, a possível decisão dos Estados Unidos de classificar as facções brasileiras como terroristas teria efeitos práticos limitados. Ele avalia que a medida ampliaria principalmente as ferramentas legais e de inteligência disponíveis para autoridades americanas, permitindo monitorar movimentações financeiras, rastrear integrantes e aplicar sanções.

No entanto, o impacto direto sobre esses grupos seria restrito, já que eles não têm presença significativa nem estruturas financeiras formais dentro do território americano. Farah alerta para o risco de banalização do uso da categoria "terrorismo". "Se tudo passa a ser classificado como organização terrorista, nada mais é de fato terrorismo", afirma.

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Ele argumenta que facções como PCC e CV se enquadram mais claramente na lógica do crime organizado, utilizando violência para controlar mercados ilegais, mas sem o objetivo central de produzir terror com fins políticos ou atacar os Estados Unidos, como ocorreu com grupos como a Al-Qaeda.

Implicações diplomáticas e estratégicas

Farah ressalta que a designação não abriria automaticamente caminho para operações americanas em território brasileiro. Qualquer ação desse tipo dependeria da autorização do governo brasileiro, algo que ele considera improvável no atual contexto político. "Mesmo quando houve operações contra cartéis em outros países, os EUA fizeram questão de apresentá-las como ações conjuntas com os governos locais", diz.

No caso do Brasil, uma intervenção unilateral teria alto custo diplomático e econômico, dado o peso do país na região. Para ele, a tendência mais provável é que uma eventual designação gere repercussão política e midiática no curto prazo, mas com poucas mudanças concretas no combate às facções.

O especialista também observa na atual política externa americana uma tentativa de militarizar novamente o combate ao narcotráfico, estratégia que ganhou força nos anos 1980 e que, segundo ele, produziu resultados limitados e efeitos colaterais graves, como violações de direitos humanos e aumento da influência política das Forças Armadas em países da região.