Secretária de Justiça dos EUA enfrenta fogo cruzado em audiência sobre caso Epstein
A secretária de Justiça dos Estados Unidos, Pam Bondi, compareceu nesta quarta-feira, 10 de fevereiro de 2026, à Comissão Judiciária da Câmara dos Deputados para um depoimento tenso e acalorado sobre a condução do caso Jeffrey Epstein. A audiência ocorreu em meio a uma crescente pressão política bipartidária sobre o Departamento de Justiça, acusado de reter materiais importantes e cometer graves erros na divulgação dos documentos.
Erros na divulgação expõem vítimas enquanto protegem poderosos
Durante a sessão legislativa, Bondi expressou "profundo arrependimento" pelo sofrimento causado às vítimas do financista americano abusador, que cometeu suicídio na prisão em 2019. No entanto, a secretária não pediu desculpas formais pelos erros cometidos por seu departamento, justificando que a pasta teve que lidar com mais de 3 milhões de páginas de arquivos em um prazo extremamente apertado.
Os documentos, divulgados em 30 de janeiro após adiamentos controversos, incluíram inúmeras fotos, vídeos e informações pessoais que expuseram publicamente dados sensíveis das vítimas, como endereços residenciais, enquanto mantiveram censurados nomes de homens poderosos ligados a Epstein. Esta discrepância no tratamento gerou indignação generalizada entre legisladores de ambos os partidos e entre as próprias sobreviventes.
Acusações de acobertamento e contradições na defesa
O deputado Jamie Raskin, principal membro democrata no comitê, foi direto em suas críticas: "Esse será o seu legado, a menos que haja rapidamente para mudar de rumo. A senhora está conduzindo um enorme acobertamento do caso Epstein diretamente de dentro do Departamento de Justiça". Raskin acrescentou que Bondi estaria "do lado dos perpetradores e ignorando as vítimas".
Até mesmo republicanos, tradicionalmente aliados da administração Trump, expressaram frustração com a gestão do caso. O deputado Thomas Massie, coautor da lei que obrigou a divulgação dos arquivos, destacou contradições na postura da secretária, enquanto Bondi respondeu acusando-o de sofrer de uma "síndrome de perturbação por Trump".
Vítimas exigem segurança e dignidade
A brasileira Marina Lacerda, de 37 anos, que afirma ter sido abusada por Epstein aos 14 anos, representou as vozes das sobreviventes durante protesto em frente ao Capitólio. "Como o Departamento de Justiça foi capaz de ser tão cuidadoso em censurar o nome de homens poderosos e, ainda assim, falhou em proteger as sobreviventes?", questionou ela a jornalistas.
Lacerda destacou demandas básicas das vítimas: "Segurança e dignidade. Nós temos vidas, famílias, e não escolhemos esses crimes. Não deveríamos pagar o preço novamente". Ela e outras sobreviventes também criticaram a falta de investigação e responsabilização de políticos e figuras poderosas mencionadas nos documentos.
Repercussão internacional e renúncias globais
Enquanto o caso gera turbulência política nos Estados Unidos, a divulgação dos documentos sobre Epstein desencadeou uma onda de consequências internacionais:
- Na França, o ex-ministro da Cultura Jack Lang renunciou ao cargo de chefe do Instituto Mundo Árabe após a polícia abrir inquérito sobre suas ligações financeiras com Epstein
- Na Eslováquia, o conselheiro de Segurança Nacional do premiê, Miroslav Lajcak, deixou seu posto após e-mails trocados com Epstein sobre mulheres jovens virem a público
- No Reino Unido, a descoberta de relações profundas entre o ex-embaixador em Washington Peter Mandelson e Epstein provocou crise no governo, levando à renúncia de duas figuras importantes da administração
- O ex-príncipe Andrew Mountbatten-Windsor foi despejado de sua mansão na propriedade real de Windsor após novos documentos revelarem o grau de sua relação com o pedófilo
Futuro incerto para investigação e transparência
Durante a audiência, Bondi se comprometeu a corrigir os erros de censura, afirmando: "Se o nome de qualquer homem foi censurado, isso não deveria ter acontecido. Nós, é claro, vamos retirar essa censura. Se o nome de uma vítima foi divulgado sem censura, por favor, levem isso a nós, e nós o censuraremos".
No entanto, legisladores permanecem céticos, apontando que o Departamento de Justiça excedeu as isenções permitidas pela legislação federal aprovada em novembro passado para obrigar a liberação completa dos arquivos. O caso Epstein continua sendo uma pedra no sapato para a administração Trump, com críticos argumentando que a falta de processos criminais contra figuras poderosas mencionadas nos documentos alimenta teorias de acobertamento sistemático.
A transparência da justiça americana está sob intenso escrutínio, enquanto vítimas, ativistas e legisladores de ambos os partidos exigem mudanças significativas na forma como casos de abuso sexual envolvendo elites são investigados e divulgados.



