Mães cantoras do Triângulo Mineiro: desafios e legado entre palco e colo
Mães cantoras: desafios e legado entre palco e colo

Entre o palco e o colo, a relação entre música e maternidade nem sempre segue o mesmo ritmo. Para algumas artistas do Triângulo Mineiro, é desse encontro que surgem histórias marcantes em busca de harmonia. Entre ensaios, turnês e gravações, elas mostram como equilibram carreira e família sem abrir mão de quem são.

Abadia Pires: maternidade e palco lado a lado

A cantora de samba Abadia Pires, mãe de Alexandre, Fernando e João Júnior — todos músicos —, nunca separou a maternidade da vida artística. Teve o primeiro filho aos 16 anos, o segundo aos 18 e o terceiro aos 25. Em todas as gestações, cantou até o limite. “A maternidade esteve comigo em cima do palco grávida até nove meses. Isso aconteceu com meus três filhos”, conta a artista, conhecida nacionalmente após participar do 'The Voice +'. Natural de Araguari, Abadia explica que conciliar os dois universos exigiu escolhas difíceis. Em alguns momentos, precisou deixar os filhos com familiares para cumprir a agenda de shows. Ainda assim, sempre buscou incluí-los na rotina artística. “Sempre que dava, eu levava eles comigo.”

Mais do que a música, Abadia acredita ter transmitido valores essenciais. “Ensinei meus filhos o amor, caráter, autenticidade, verdade e simplicidade”, afirma. Um dos momentos mais desafiadores ocorreu quando Alexandre e Fernando (da banda Só Pra Contrariar), ainda adolescentes, pediram para deixar a escola e seguir carreira musical. “Eu deixei eles seguirem, porque acredito que toda mãe deve incentivar os filhos a fazer o que ama”, diz. Hoje, ela vê sua trajetória como uma integração entre os papéis. “A Abadia artista e a mãe caminham juntas, dando amor e entretenimento tanto para o público quanto para a família.”

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Rebeca Li: mãe feliz, filhas felizes

A história de Rebeca Li, nome da cena underground de Uberlândia e mãe de Cecília e Clarice, é marcada por ajustes constantes. Ela começou na música aos 9 anos e já tocava profissionalmente quando teve a primeira filha, aos 21. A segunda nasceu quando ela tinha 26, e foi no ano seguinte que criou sua primeira banda autoral. Baterista e vocalista, Rebeca sentiu o impacto da maternidade no ritmo da carreira. “O fato de ter duas meninas me atrasava, porque o pai delas também tocava e a gente precisava conciliar.” A dinâmica mudou após a separação, quando a divisão de responsabilidades permitiu retomar projetos com mais intensidade.

Desde então, Rebeca passou por bandas, projetos cover e hoje integra grupos consolidados. Pela primeira vez em 15 anos, está passando mais tempo longe das filhas, e neste Dia das Mães estará à distância, em turnê pela Europa com o duo Morcegula, ao lado do companheiro Henrique Badke. “Já ensaiei muito com criança e já tive que sair para tocar com a Cecília chorando”, relembra. Ainda assim, defende que manter a própria identidade é essencial. “Sou da filosofia de que, se a Cecília tem uma mãe feliz e realizada, ela tem a melhor mãe do mundo. De nada adianta estar 100% presente e perder quem você é.” A relação com a música foi construída dentro de casa: as filhas estudam música, cantam as canções da mãe e acompanham sua trajetória. “Quero ensinar para elas jamais se abandonarem”, afirma.

Ariane Torga: limites claros entre arte e maternidade

Para a cantora Ariane Torga, mãe de Catarina, a música ganhou um significado ainda mais simbólico com a maternidade. Começou a cantar em 2007, após se mudar de Juiz de Fora para Uberlândia, e teve a filha aos 32 anos. O nascimento de Catarina é uma memória marcante e musical. Ariane, que forma dupla com o marido no duo Dama de Espadas e integra outros projetos de rock e blues, relembra: “A música que tocava no momento em que ela nasceu era ‘Here Comes The Sun’, dos Beatles. Coincidência ou não, é uma das bandas preferidas dela hoje”.

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Ariane descreve o início da maternidade como um período de transformação profunda. “Nada se compara a abrir mão da mulher que eu era e tentar descobrir quem eu me tornaria, muitas vezes me anulando em função da vida que dependia de mim.” Apesar das renúncias, há limites claros. “Não abriria mão da minha profissão. Uma mãe feliz com o que faz é um exemplo para o filho.” A rotina exige constantes escolhas. “A casa desorganizada e o post do Instagram podem esperar. Estar com minha filha e subir no palco preparada não podem.” Para ela, a troca entre artista e mãe é contínua. “A Ariane artista me deu força e coragem. A mãe me ensinou que é o amor que faz a gente continuar, mesmo quando parece impossível.”

Em comum, as histórias revelam que não existe fórmula pronta para conciliar maternidade e carreira artística. Entre renúncias, adaptações e conquistas, essas mulheres mostram que a música pode ser, ao mesmo tempo, profissão, identidade e herança. E, no compasso da vida, seguem afinando duas das experiências mais intensas que existem: cantar e maternar.