Favela do Moinho em SP completa um ano de desocupação com poucas famílias remanescentes
Favela do Moinho completa 1 ano de desocupação em SP

Favela do Moinho em São Paulo marca um ano de desocupação com cenário de transformação urbana

A desocupação da Favela do Moinho, localizada no Centro da capital paulista, completa exatamente um ano nesta terça-feira (22), revelando um processo complexo de realocação de famílias e mudanças profundas na paisagem urbana. Enquanto centenas de famílias já deixaram a comunidade histórica, uma realidade desafiadora persiste para os poucos remanescentes que ainda aguardam uma solução habitacional definitiva.

Cenário atual: vazio e espera

Atualmente, restam aproximadamente 30 famílias na área que já foi um vibrante núcleo comunitário. O cenário à tarde na região mostra o vazio deixado pelas demolições em larga escala, com poucos símbolos remanescentes do que foi conhecida como a última favela no Centro de São Paulo. O antigo silo do Moinho, estrutura que funcionou no local por décadas, nunca esteve tão visível após a remoção das construções ao seu redor.

A comunidade, que existiu por mais de 30 anos, está chegando ao seu fim definitivo. Poucas pessoas circulam pelas ruas sem asfalto, e algumas buscam sucata entre os escombros das casas demolidas para obter algum recurso financeiro. O comércio intenso que caracterizava a principal avenida da favela - incluindo salões de beleza, padarias, bares e lanchonetes - desapareceu completamente.

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Histórias pessoais no processo de transição

A vida de Yohana Gabriela e seus quatro filhos ilustra a realidade dos que permanecem. Peruana, ela mora no andar superior de um imóvel já desocupado enquanto aguarda a conclusão de um contrato com a Caixa Econômica Federal. "Pessoal aqui da comunidade acolheu a gente, a mim, meus filhos, sempre trataram com carinho e respeito minha família, de boa, um ajudando o outro. Não tem mais ninguém, não tem mais nada aqui", relata Yohana.

Ela conta que os últimos vizinhos já deixaram o local: "Aqui já não tem quase mais ninguém, então o que mais tem aqui é morador de rua, então não tem mais nada, só o medo mesmo." Outro morador, Rosalvo, expressa seu desejo de conseguir um apartamento para ter mais tranquilidade: "Quero sair, tô afim de sair, quero sair, quero sair." Ao receber votos de boa sorte, responde com um simples: "Amém!"

Dados oficiais e investimentos públicos

Segundo o secretário estadual de Desenvolvimento Urbano e Habitação, Marcelo Branco, 850 famílias têm direito à moradia no processo. Até o momento:

  • Mais de 500 famílias já deixaram a Favela do Moinho
  • Aproximadamente 540 famílias foram para imóveis construídos ou adquiridos pela CDHU
  • Cerca de 310 famílias assinaram contrato com a Caixa Econômica Federal
  • 457 famílias já foram encaminhadas para moradia definitiva
  • Quase 400 famílias recebem auxílio-aluguel até a conclusão da compra dos imóveis
  • 72 donos de comércios foram indenizados pela Prefeitura de São Paulo

O governo estadual já investiu cerca de R$ 129 milhões no processo, sendo aproximadamente R$ 100 milhões apenas para compra de imóveis. O subsídio para cada novo imóvel é de R$ 250 mil, com R$ 180 mil provenientes da União e R$ 70 mil do estado.

Contexto policial e burocrático

A desocupação faz parte de um acordo entre moradores e os governos estadual e federal, após uma sequência de operações policiais para combater o tráfico de drogas e conflitos com a Polícia Militar. Em agosto de 2024, uma operação cumpriu 200 mandados de busca e apreensão e 11 de prisão, com o Ministério Público denunciando 11 pessoas ligadas ao PCC que usavam a favela para atividades criminosas, incluindo o abastecimento do tráfico na Cracolândia.

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Segundo o secretário Marcelo Branco, não há resistência por parte das famílias remanescentes: "Esse núcleo de 28 famílias que estão lá é porque não houve uma operacionalidade da Caixa... sem resistência, mas ainda não localizaram o imóvel ou alguma coisa muito particular." Ele destaca que ainda existem entraves burocráticos, especialmente na transferência do terreno da União para o estado de São Paulo, negociação que já dura mais de dois anos.

Futuro do espaço e conclusões

Após a desocupação total, o espaço deve dar lugar a um parque urbano com quadras esportivas, pista de skate, viveiro e uma estação de trem. A Caixa Econômica Federal informou que atua para concluir as contratações no menor prazo possível, mas que a finalização depende da apresentação dos imóveis e da documentação pendente por parte dos últimos beneficiários.

O processo, que transforma radicalmente uma área central de São Paulo, representa um capítulo significativo na política habitacional e de reurbanização da cidade, equilibrando necessidades sociais, segurança pública e desenvolvimento urbano.