Um estudo científico realizado por pesquisadores brasileiros trouxe um alerta preocupante: o avanço do desmatamento na Mata Atlântica está diretamente ligado ao aumento de picadas de mosquitos em seres humanos. A pesquisa, conduzida por especialistas do Instituto Oswaldo Cruz (Fiocruz) e da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), mostra que a perda da vegetação nativa altera o comportamento dos insetos, que passam a nos ver como sua principal fonte de alimento.
Menos floresta, mais risco de doenças
O trabalho de campo analisou a situação em dois fragmentos florestais do estado do Rio de Janeiro: a Reserva Ecológica do Guapiaçu (REGUA), em Cachoeiras de Macacu, e o Sítio Recanto Preservar, em Silva Jardim. Nessas áreas, que ainda preservam biodiversidade mas sofrem pressão humana, os cientistas capturaram 1.714 mosquitos de 52 espécies diferentes.
Do total, apenas 145 fêmeas estavam com sangue no abdômen. Através de exames genéticos, foi possível identificar a origem da refeição em 55 dessas fêmeas. O resultado foi alarmante: a maioria havia se alimentado de sangue humano.
Por que os mosquitos estão mudando de cardápio?
Os pesquisadores explicam a mudança de comportamento com uma lógica simples de oferta e demanda. A Mata Atlântica, que já cobriu mais de 1,3 milhão de quilômetros quadrados, hoje mantém apenas cerca de 29% de sua área original. Com o desmatamento, a população de vertebrados silvestres – como aves, roedores e anfíbios –, que são as fontes naturais de alimento dos mosquitos, diminui drasticamente.
Sem opções na floresta degradada, os insetos são empurrados para áreas habitadas. Eles passam a circular em quintais, zonas periurbanas e dentro de ambientes domésticos, onde os humanos se tornam as presas mais acessíveis.
Um perigo real para a saúde pública
Essa proximidade forçada tem consequências graves. Entre as espécies que apresentaram sangue humano na pesquisa, estavam mosquitos conhecidos por transmitir vírus perigosos. O Aedes albopictus, associado à dengue, zika, febre amarela e chikungunya, foi um deles. Também foram identificados o Aedes scapularis, o Aedes serratus e a Psorophora ferox, todos vetores ligados à febre amarela silvestre.
O estudo, publicado em janeiro de 2026, serve como um alerta contundente. Doenças transmitidas por mosquitos são um problema global de saúde pública, causando mais de 700 mil mortes por ano no mundo. Os números são assustadores: em 2022, a malária registrou 249 milhões de casos e 608 mil óbitos. Já em 2019, a dengue atingiu 4,2 milhões de pessoas, com cerca de 3 bilhões sob risco de infecção.
A pesquisa conclui que a conservação dos ecossistemas nativos é uma estratégia crucial de saúde pública. Proteger a floresta significa manter os mosquitos longe de nosso sangue e, consequentemente, reduzir o risco de epidemias que afetam milhões de brasileiros.