Brasileira no topo da governança dos oceanos alerta: 'Não existe atividade sem risco'
A oceanógrafa brasileira Letícia Carvalho, eleita para o mandato 2025-2028 à frente da Autoridade Internacional dos Fundos Marinhos, ocupa uma das posições mais estratégicas na governança global dos oceanos. O órgão, vinculado ao sistema das Nações Unidas, reúne 172 países e a União Europeia, sendo responsável por regular a exploração de recursos minerais em áreas internacionais do fundo do mar, um tema sensível na agenda ambiental e econômica mundial.
Liderança baseada em ciência e evidências
Em meio à pressão por regras para a mineração em alto-mar, discussões sobre moratórias e avanço de interesses industriais, Carvalho defende uma liderança fundamentada em evidência científica, governança robusta e decisões multilaterais. 'A minha contribuição como cientista está na centralidade da evidência científica', afirma ela, destacando que isso ajuda a estabelecer uma atmosfera de negociação baseada em dados concretos.
Desafios da representatividade feminina
Como mulher em um espaço ainda majoritariamente masculino, Carvalho observa que as lideranças femininas na governança dos oceanos são mínimas. 'Em muitas reuniões, sou a única mulher entre diversos colegas homens', relata. Ela acredita que a liderança feminina traz uma sensibilidade maior para inclusão, cuidado e construção de consenso, focando em ampliar a participação de todos os envolvidos.
Equilíbrio entre exploração e preservação
Carvalho aborda o delicado equilíbrio entre exploração econômica e preservação ambiental, enfatizando que não é um objetivo tangível, mas uma busca constante. 'Atividades industriais sempre envolvem riscos, ambientais, sociais e econômicos, e isso não pode ser negado', alerta. Ela reconhece que sempre haverá risco de dano ambiental, desequilíbrio econômico ou aumento de desigualdade, e como cientista, não pode ignorar essa realidade.
Fortalecimento da governança internacional
Diante da pressão por moratórias, Carvalho argumenta que a melhor resposta não é postergar indefinidamente, mas fortalecer a governança internacional. 'Sem regulamentação completa, verificação e inspeção, não há proteção ambiental', explica. Ela defende que o sistema internacional fica mais frágil e sujeito a ações unilaterais sem transparência adequada.
Caminho para um futuro sustentável
Para alcançar um equilíbrio, Carvalho propõe fortalecer a arquitetura de governança da ISA como órgão regulador, incluindo:
- Regras robustas e claras
- Capacidade institucional ampliada
- Recursos técnicos e financeiros adequados
- Proteção do meio ambiente e do patrimônio comum da humanidade
Ela ressalta que esse equilíbrio será sempre uma busca, baseada em aprendizado contínuo, evidência científica e confiança entre os países, com legitimidade e capacidade de adaptação como elementos-chave.
Papel do multilateralismo em tempos de fragmentação
Em um contexto de fragmentação global, Carvalho defende o multilateralismo como essencial para enfrentar desafios complexos. 'A melhor resposta é a coletividade', afirma, destacando que transparência, decisões compartilhadas e ajustes constantes são fundamentais. Embora reconheça que o processo é mais lento e complexo, ela vê nele uma fonte de esperança para construir soluções legítimas e duradouras.



