Muito antes de se tornar um dos destinos turísticos mais belos do Centro-Oeste, a região de Chapada dos Guimarães, a 65 quilômetros de Cuiabá, era um mundo completamente diferente. Há milhões de anos, o local foi um mar repleto de vida e, posteriormente, um território dominado por dinossauros gigantes. As descobertas de pesquisadores da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) estão desvendando esse passado remoto, escrito nas rochas e fósseis do município.
Do fundo do mar à terra dos gigantes
O professor e coordenador científico da UFMT, Caiubi Kuhn, explica que as rochas da Chapada contam uma história que abrange centenas de milhões de anos. No período Devoniano, entre 419 e 358 milhões de anos atrás, toda a região, incluindo áreas que hoje formam a Cordilheira dos Andes, era fundo do mar. Dessa época, são encontrados fósseis de invertebrados marinhos, como braquiópodes (semelhantes a conchas) e trilobitas, animais com carapaça que lembram insetos blindados.
"O mar cobria toda a borda oeste da placa, porque ela era bem mais baixa, e Chapada também não estava na altura que está hoje", informou Kuhn. Esses fósseis marinhos, devido ao seu tamanho reduzido, são frequentemente encontrados inteiros e em ótimo estado de preservação.
A paisagem mudou radicalmente no período Cretáceo. Entre 84 e 66 milhões de anos atrás, o mar havia recuado e dado lugar a um ambiente semiárido, com vales e montanhas. Foi nesse cenário que os dinossauros passaram a dominar a região. Entre os habitantes pré-históricos identificados estão o Pycnonemossauro, um dinossauro carnívoro, e grandes herbívoros quadrúpedes, que dividiam o espaço com crocodilos e tartarugas.
O desafio de montar o quebra-cabeça pré-histórico
Encontrar vestígios desses gigantes é um trabalho minucioso. Diferente dos pequenos invertebrados marinhos, ossos de vertebrados como dinossauros raramente são achados completos. "É comum encontrá-los fragmentados, igual quando vemos em um pasto pedaços de ossos de gado e galinhas", compara o pesquisador.
Os paleontólogos frequentemente descobrem uma costela em um local, uma vértebra em outro e um dente perdido mais adiante. Por isso, quando um fóssil mais completo surge, como já aconteceu na Chapada, é uma oportunidade valiosa para identificar a espécie e reconstruir com mais precisão a história da região.
Lendas, turismo e nosso parentesco antigo
As descobertas científicas dialogam diretamente com o imaginário popular. No Morro do Cambambe, por exemplo, circula a lenda de ossos gigantes, onde antigos moradores acreditavam que gigantes teriam virado pedra e formado o relevo local. Para a ciência, esses "gigantes" eram, na verdade, os enormes dinossauros do Cretáceo.
Kuhn destaca ainda um parentesco distante que todos nós carregamos. "De certa forma, creio que todos nós temos um certo parentesco com o trilobita, que provavelmente foi o ancestral de todos os vertebrados", afirma. Ele também lembra que os dinossauros não foram totalmente extintos. "Um grupo, os dinossauros avianos, sobreviveu. As galinhas, emas entre outros, são descendentes deste grupo".
Esse rico passado transforma Chapada dos Guimarães em um local de extrema importância para educação, ciência e turismo. O interesse pela pré-história do município movimenta a economia local, com a venda de artesanatos, cerâmicas, camisetas e réplicas de fósseis, além de fomentar a criação de rotas turísticas que unem belezas naturais e história do planeta.
O Parque Nacional da Chapada dos Guimarães, no bioma Cerrado, já é famoso por suas cachoeiras deslumbrantes como o Véu de Noiva (86m), a Cachoeira da Geladeira e o Circuito das Cachoeiras. Agora, as descobertas paleontológicas acrescentam uma nova e fascinante camada de atrativo para visitantes do Brasil inteiro, dispostos a conhecer as marcas de um mundo perdido no tempo.