Garimpo ilegal avança sobre terra indígena em Mato Grosso com presença de facções criminosas
A Terra Indígena Sararé, localizada em Mato Grosso, se tornou o território com o maior número de alertas de garimpo ilegal em todo o Brasil, registrando impressionantes 1.814 ocorrências de mineração clandestina. Os dados alarmantes foram divulgados pela Operação Amazônia Nativa (Opan) nesta quarta-feira (22), com base em monitoramento realizado pelo Ibama, revelando uma crise ambiental e social de proporções catastróficas.
Pressão minerária avassaladora sobre terras indígenas
O levantamento detalhado aponta que 93% das terras indígenas mato-grossenses estão atualmente sob pressão direta da atividade minerária. Das 74 áreas registradas na base geográfica da Funai, um total de 69 possuem processos minerários em seu entorno imediato, considerando um raio de até 10 quilômetros. Essa invasão silenciosa transforma paisagens sagradas em alvos de exploração predatória.
Os números são ainda mais preocupantes quando analisamos a evolução temporal: o número de processos minerários em Mato Grosso saltou de 5.926 em 2018 para 13.627 em 2025, representando um crescimento vertiginoso de quase 130% em apenas sete anos. Coletivamente, esses processos abrangem aproximadamente 22.539.135,89 hectares, o que corresponde a impressionantes 24,9% do território estadual – uma área comparável à extensão total do Reino Unido.
Contaminação ambiental e violência estrutural na Sararé
Em relação especificamente à Terra Indígena Sararé, o boletim da Opan destaca impactos ambientais devastadores que estão destruindo ecossistemas inteiros. A contaminação de corpos d'água, incluindo o córrego Água Suja e o rio Sararé, com rejeitos de mineração, mercúrio e cianeto, representa um risco imediato à saúde das comunidades indígenas e à biodiversidade local.
Além da degradação ambiental, o documento registra o aumento alarmante da violência na região, com a presença de facções criminosas que se infiltraram a partir de 2022 e assumiram o controle do garimpo ilegal em 2024. Relatos consistentes de tiros, ameaças de morte e ataques diretos a aldeias caracterizam uma violência estrutural e sistemática que expõe comunidades inteiras a danos irreparáveis.
Processos minerários se concentram no ouro
A Terra Indígena Sararé ocupa a quarta posição entre as terras indígenas com maior número de requerimentos minerários próximos, somando 72 processos ativos que pressionam seus limites. O ouro é o principal minério de interesse nessas solicitações, presente em 58 processos que, juntos, abrangem cerca de 143.383,9 hectares de território ameaçado.
Outras terras indígenas também enfrentam pressão extrema: a Terra Indígena Vale do Guaporé lidera com aproximadamente 237.061,77 hectares sob influência de processos minerários, seguida pela Terra Indígena Escondido (195.355,32 hectares) e pela Terra Indígena Piripkura (157.620,48 hectares), esta última habitada por povos indígenas isolados especialmente vulneráveis.
Falta de ação governamental e histórico de devastação
Em janeiro, o Ministério Público Federal (MPF) e a Defensoria Pública da União (DPU) cobraram a apresentação imediata de um plano de ação da União e de órgãos federais para combater o garimpo ilegal na Sararé. Segundo as instituições, já se passaram três anos desde a decisão judicial de janeiro de 2022 que determinou ação efetiva contra a mineração clandestina, mas a ausência de medidas concretas tem contribuído para a permanência e o agravamento da atividade criminosa.
O histórico da região é marcado por devastação: a Sararé liderou, em 2024, o ranking das terras indígenas mais desmatadas da Amazônia Legal. Entre 2021 e 2024, o desmatamento associado à área cresceu 729%, conforme revelado pelo relatório Cartografias da Violência na Amazônia 2025. O documento identificou a presença de garimpos ativos dentro da TI Sararé, com uso de escavadeiras hidráulicas, balsas e bombas de sucção que destroem o solo e os cursos d'água.
Cenário de fronteira facilita criminalidade
A proximidade com a fronteira boliviana transformou a região em uma das rotas mais usadas para o tráfico de drogas, segundo a Polícia Civil, criando um ambiente propício para a atuação de organizações criminosas. Diversas operações realizadas na área comprovam a gravidade do cenário, onde garimpeiros ilegais chegaram a se esconder em bunkers equipados com suprimentos durante confrontos com agentes do Ibama.
A situação na Terra Indígena Sararé representa um microcosmo da crise ambiental e humanitária que assola a Amazônia brasileira, onde interesses econômicos ilegais se sobrepõem aos direitos constitucionais de povos originários e à preservação de um dos biomas mais importantes do planeta.



