Há dez anos, era comum passageiros entrarem em um carro de aplicativo em Fortaleza e serem recebidos com água, chocolate e outros mimos. Uma década depois, o cenário mudou drasticamente: as reclamações sobre a demora em conseguir uma corrida são frequentes. Mas como o serviço se transformou tanto nesse período? Do outro lado, os motoristas são quase unânimes: a média de ganhos mensais não permite mais adoçar as viagens.
A Uber iniciou suas operações em Fortaleza em 29 de abril de 2016, com a modalidade UberX, exclusiva para carros, que ainda está disponível. No ano seguinte, a 99 também começou a atuar na capital cearense. Em junho de 2021, as motos da Uber chegaram à cidade, seguidas pela categoria 99 Moto um ano depois. Esta é a terceira reportagem de uma série do g1 que analisa os impactos do serviço de corridas por aplicativos ao longo de uma década.
Mudança nos ganhos
Estimativas recentes indicam que a média mensal de ganhos dos profissionais pode chegar a R$ 5.142, com lucro líquido de R$ 1.947. Há dez anos, um condutor poderia lucrar até R$ 5,1 mil. Enquanto isso, os passageiros se dividem entre a preferência por deslocamentos rápidos e práticos e a frustração com a demora na aceitação das solicitações.
Relato de um veterano
Romário Fernandes é um dos primeiros motoristas de aplicativo de Fortaleza, tendo iniciado em maio de 2016. Ele entrou no serviço após ser demitido de um emprego de seis anos, usando o dinheiro da rescisão para financiar um carro. “Não imaginava que estaria aí há 10 anos trabalhando nas plataformas digitais, conhecendo quase todos os bairros da cidade”, afirma. Atualmente, o serviço é sua principal renda, conciliado com a faculdade de Direito pela manhã.
Romário destaca a desvalorização da renda: “Os ganhos diminuíram bastante, a carga horária aumentou. Quando a Uber começou, o ganho mínimo era R$ 4,50; hoje é R$ 5,80. Mas o combustível, a depreciação do carro, tudo aumentou. Somos obrigados a trabalhar mais horas.” Ele também aponta melhorias na segurança, como a possibilidade de ver o destino e a nota do passageiro antes de aceitar a corrida.
Equilíbrio delicado
Fabrício Ribeiro, diretor de Operações da 99, afirma que a empresa busca um equilíbrio entre o valor cobrado dos passageiros e os repasses aos motoristas. “Se subirmos demais os ganhos, o volume de corridas cai, e o motorista fica mais ocioso. Nosso trabalho é encontrar o ponto que maximiza a ocupação com o maior ganho possível por corrida.” Ele ressalta que os ganhos médios por quilômetro em Fortaleza são um pouco maiores que a média nacional. A Uber não disponibilizou representante para comentar.
Associação de motoristas
Evans Sousa, presidente da Associação de Motoristas de Aplicativo do Ceará (AMAP-CE), é motorista há quase dez anos. A associação luta por melhorias, como a redução da taxa dos aplicativos, que hoje fica entre 30% e 60% do valor da corrida. “O valor justo seria entre 20% e 25%”, diz. A AMAP-CE também promove ações como o ‘Ação Motora’ (corte de cabelo, maquiagem, atualização de documentos), o ‘Super Girls’ (voltado para mulheres), o ‘Pit Stop’ (lazer para motoristas e família) e o ‘Tamo Junto’ (ajuda a motoristas em necessidade).
Mobilidade urbana
Em 2025, Fortaleza registrou cerca de 520 mil passageiros de transporte público por dia, uma queda drástica em relação a 2015 (1,15 milhão). Os aplicativos se tornaram a principal forma de locomoção para muitos, como o casal Fernanda Araújo e Vinicius Fioravante. Eles usam apps para tudo: trabalho, academia, supermercado. Fernanda destaca o custo-benefício, embora prefira carro por segurança. Vinicius sugere que o código de confirmação seja obrigatório em todas as corridas para aumentar a segurança de ambos os lados.



