O funkeiro MC Brinquedo, um dos grandes nomes do funk de São Paulo, anunciou sua aposentadoria do gênero na última sexta-feira, 1º de novembro. A decisão foi divulgada em um vídeo no qual Vinicius Ricardo de Santos Moura fala sobre sua história com o funk e sua conversão ao evangelho. MC Brinquedo foi uma das grandes revelações do funk paulistano na primeira metade dos anos 2010, ao lado de MC Pikachu e MC Pedrinho.
O auge dos MCs mirins
Antes, o funk de São Paulo era conhecido pela ostentação, com letras sobre carros importados e roupas de grife. Mas novos artistas, muitos deles crianças, trouxeram um estilo diferente: letras engraçadas e também pornográficas, com teor sexual explícito. MC Brinquedo, MC Pikachu e MC Pedrinho foram os principais expoentes dessa nova onda.
MC Brinquedo: do sucesso à depressão
O primeiro sucesso de MC Brinquedo, “Roça Roça”, surgiu em 2014, quando ele tinha entre 12 e 13 anos. Conhecido pelo cabelo dividido entre rosa e azul, ele tentou manter o sucesso durante a adolescência, mas não conseguiu emplacar novas músicas do mesmo estilo. Após completar 18 anos, enfrentou uma depressão e se afastou das redes sociais. Em 2020, lançou o álbum “Único”, com um estilo mais sério. Seu último grande hit foi a participação no projeto “THE BOX MEDLEY FUNK”, que chegou a ser a música mais ouvida do país no YouTube e Spotify em 2024. Em entrevista ao podcast Popdah, Brinquedo falou sobre o cansaço: “O Brinquedo tem muita história, muita imagem, mas não trabalharam a musicalidade dele. Eu vivia para fazer show. Fiz 12 shows numa noite. A indústria mudou”. A aposentadoria do funk chegou aos 24 anos.
MC Pikachu: tumor e dificuldades
O mais velho do trio, Matheus Sampaio Correa, o MC Pikachu, hoje tem 26 anos. Seu primeiro sucesso foi “Avistei a Novinha no Grau”, em 2014. Depois vieram “Novinha Profissional” e “Lá No Meu Barraco”, ambas com temática sexual. Em 2018, ele descobriu um tumor benigno no cérebro e passou por uma cirurgia bem-sucedida. Desde então, enfrenta dificuldades para retomar a carreira. Em fevereiro deste ano, anunciou que seu novo empresário seria MC Pedrinho.
MC Pedrinho: o mais bem-sucedido
Pedro Maia Tempester, o MC Pedrinho, nasceu em maio de 2002. Seu primeiro grande hit, “Dom Dom Dom”, foi lançado em 2014. Da safra, foi quem mais conseguiu se manter em alta, com sucessos como “Se Prepara”, “Matemática”, “Nosso Amor”, “Solta o Grave” e “Dançarina” (2022), que viralizou no TikTok em parceria com Pedro Sampaio. Atualmente, Pedrinho agencia a própria carreira e a de outros artistas, como MC Pikachu e seu irmão MC Nando, por meio da produtora Só Crazy.
Por que as crianças não estão mais no funk?
O sucesso de Pedrinho, Pikachu e Brinquedo inspirou diversas crianças a tentar a ascensão social pela música. Mas, dez anos depois do boom dos MCs mirins, o cenário mudou. Nomes como MC Teteu (14 anos, com “Dingo Bell” em 2019) e MC Iguinho CT (13 anos, com “No Baile de Guarda Chuva”) são exceções.
O grande ponto de mudança foi em 2015, quando a Justiça de São Paulo proibiu MC Pedrinho de fazer shows, alegando que suas apresentações violavam a Constituição, o Estatuto da Criança e do Adolescente e a Convenção da ONU sobre os direitos da criança, devido ao conteúdo erótico e pornográfico. A Justiça passou a monitorar os MCs mirins, e a GR6, produtora de Pedrinho, fechou um acordo com o Ministério Público para que ele só produzisse conteúdos adequados à sua faixa etária e não fizesse shows noturnos. Isso reduziu a principal fonte de renda e assustou o mercado, fazendo com que as produtoras evitassem crianças.
Outro fator foi a profissionalização do mercado. MC Brinquedo e MC Pikachu eram da KL Produtora, que tinha em sua lista nomes como MC Bin Laden e MC Kevinho. A sede da produtora, uma casa com três andares na Zona Sul de São Paulo, contava com estúdios e um ambiente regado a drogas recreativas e bebidas. Já adultos, os MCs desabafaram sobre o ambiente tóxico. Quando MC Brinquedo diz que “a indústria mudou”, refere-se a uma profissionalização que impede crianças de fazer 12 shows em uma noite e exige maior qualidade e seriedade. Esse novo padrão foi impedindo que crianças ocupassem o mesmo palco e ambiente dos adultos, algo que antes era incentivado e hoje é impensável.



