Um jato soviético Yakovlev Yak-40, fabricado na extinta União Soviética na década de 1960, está abandonado há mais de 20 anos em uma área do Aeroporto Leite Lopes, em Ribeirão Preto, interior de São Paulo. A aeronave, que é um exemplar único no Brasil, foi destinada em 2007 pelo governo federal à Escola de Engenharia de São Carlos, da Universidade de São Paulo (USP), com o objetivo de ser utilizada exclusivamente para fins educacionais. No entanto, o avião nunca foi retirado do local.
Por que o avião não foi removido?
De acordo com James Rojas Waterhouse, professor de engenharia aeronáutica da USP São Carlos, o principal motivo é o alto custo envolvido na operação de transporte. Ele explica que seria necessário desmontar a aeronave, embalar as peças e transportá-las até o campus universitário, o que custaria entre R$ 200 mil e R$ 300 mil. "A Universidade de São Paulo não tem recursos para fazer um projeto desse tamanho. Estamos buscando já faz bastante tempo, mas até agora não logramos êxito em conseguir recursos para fazer essa transferência", afirma o professor.
Além disso, Waterhouse destaca que o avião está bastante degradado e não é viável recolocá-lo em estado aeronavegável. "Hoje não é viável comercialmente, economicamente, até porque o avião está bem degradado. Segundo, que esse é um avião, é um exemplar único no Brasil, então não têm mecânicos que conheçam esse avião, não têm peças de reposição, ou seja, seria muito difícil colocar um avião desse em estado aeronavegável", completa.
Características do Yakovlev Yak-40
O Yakovlev Yak-40 tem capacidade para 40 passageiros, autonomia de três horas de voo e foi amplamente utilizado para o transporte regional de passageiros. A aeronave possui três motores a jato, cerca de 20 metros de comprimento, 25 metros de envergadura e seis metros de altura. Seu primeiro voo ocorreu em outubro de 1966. O jato tem velocidade de cruzeiro de aproximadamente 550 km/h e alcance de cerca de 1,8 mil km, podendo atingir altitude máxima de 26 mil pés (aproximadamente 8 mil metros).
Waterhouse ressalta o valor educacional da aeronave: "Ele é uma espécie de laboratório vivo para mostrar aos alunos tanto turbinas quanto sistemas hidráulicos".
Histórico da aeronave no Brasil
Em 2001, o avião foi adquirido de São Tomé e Príncipe, na África, pelo Clube Náutico Água Limpa, de Belo Horizonte. A entidade operou voos para destinos como Búzios (RJ) e Foz do Iguaçu (PR) até 2002, utilizando a matrícula estrangeira "Sierra 9 Bravo Alfa Papa".
Em 2002, durante uma dessas viagens, o avião fez um pouso não programado em Ribeirão Preto. Na ocasião, o antigo Departamento de Aviação Civil (DAC) apontou irregularidades, resultando na apreensão definitiva pela Receita Federal, sob alegação de descumprimento de normas para transporte em território nacional.
Em 2007, após a apreensão, a Receita Federal destinou o jato à Escola de Engenharia de São Carlos, da USP. No entanto, em 2013, o Clube Náutico Água Limpa ganhou na Justiça uma ação que considerou a apreensão irregular, afastando o argumento de que a aeronave não estava regularmente nacionalizada.
Em 2018, o clube ajuizou nova ação pedindo indenização de R$ 1,5 milhão na Justiça Federal, além de R$ 280 mil para remover as peças do aeroporto. O processo ainda não teve decisão definitiva. Em nota, a entidade informou: "A apreensão da aeronave foi reconhecida como ilegal pelo Poder Judiciário, tendo sido anulados tanto o processo administrativo, quanto a pena de perdimento anteriormente aplicados pela União Federal".
Em meio ao impasse judicial, a aeronave permanece há mais de 20 anos em uma área atrás da base do Corpo de Bombeiros no Aeroporto Leite Lopes, com a estrutura desgastada pela exposição e ação do tempo, perdendo valor comercial.



