50 anos do incêndio nas Lojas Renner que matou 41 pessoas em Porto Alegre
Incêndio nas Lojas Renner: 50 anos da tragédia que matou 41

Há exatos 50 anos, um dia que parecia comum transformou-se em uma das maiores tragédias do Rio Grande do Sul. Na tarde de 27 de abril de 1976, um incêndio de grandes proporções consumiu o prédio das Lojas Renner, situado entre a Avenida Otávio Rocha e a Rua Doutor Flores, no Centro Histórico de Porto Alegre. O fogo matou 41 pessoas, deixou dezenas de feridos e marcou para sempre a memória da capital gaúcha.

O dia da tragédia

Por volta das 14h, cerca de 300 a 350 pessoas ocupavam o edifício de nove andares. Clientes circulavam pelos pavimentos, onde eram vendidos roupas, brinquedos, eletrodomésticos, instrumentos musicais e equipamentos de cinefoto. No sétimo andar, o restaurante atendia consumidores, enquanto outros aproveitavam serviços como a barbearia. Segundo o Instituto-Geral de Perícias do RS (IGP-RS), o primeiro sinal de problema foi a fumaça, percebida inicialmente no terceiro pavimento, acima do térreo e da sobreloja. Rapidamente, o que parecia um princípio de incêndio ganhou proporções incontroláveis, com chamas que atingiram temperaturas estimadas em até 800°C.

Estrutura do prédio e rotas de fuga

Do lado de fora, o edifício parecia um bloco único em chamas. Por dentro, era um complexo formado por quatro estruturas interligadas, resultado de sucessivas ampliações e reformas ao longo dos anos. Muitos ficaram presos do quarto andar para cima, sem rotas de fuga adequadas. As janelas, pequenas e fechadas de forma hermética, impediam a ventilação e a dissipação dos gases tóxicos. A escada social, com apenas um metro de largura (metade do recomendado pelas normas técnicas da época), não dava conta da evacuação em massa. A situação agravou-se quando a escada de emergência, próxima ao ponto onde o fogo teria começado, foi bloqueada logo no início do incêndio. Em vez de servir como rota de fuga, transformou-se em uma espécie de chaminé, levando fumaça e calor rapidamente para os andares superiores. Quinze extintores usados foram encontrados na escada logo acima do primeiro pavimento, indicando tentativas de contenção, conforme o IGP-RS.

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Mobilização e desabamento

Toda a estrutura de emergência da cidade foi acionada. As equipes do Corpo de Bombeiros atuaram desde os primeiros momentos, enquanto hospitais da capital se mobilizavam para receber feridos. O Hospital de Pronto Socorro colocou seu corpo técnico em alerta máximo. Centenas de pessoas se dirigiram aos bancos de sangue para doar e tentar ajudar as vítimas. Cerca de duas horas após o início do incêndio, parte do prédio desabou, principalmente na lateral voltada para a Rua Doutor Flores, cedendo em razão das temperaturas extremamente elevadas.

Investigação pericial

O trabalho pericial avançou somente dois dias depois, quando foi possível acessar os escombros com relativa segurança. Durante oito dias, especialistas analisaram os nove andares do prédio, uma área de cerca de oito mil metros quadrados, observando o que restou das estruturas de alvenaria, divisórias de madeira, escadas, elevadores e instalações hidráulicas e elétricas. A atenção voltou-se especialmente para a rede elétrica. Tomadas foram desmontadas e equipamentos avaliados em busca de indícios de curto-circuito. Ainda de acordo com o IGP, apenas uma irregularidade foi encontrada, em um aparelho de ar-condicionado do quarto pavimento, onde uma gota de ferro fundido sugeria aquecimento extremo. No entanto, o laudo concluiu que aquele dano havia sido consequência do incêndio — e não sua causa.

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Causa do incêndio

O trabalho culminou na resposta à principal pergunta da investigação: o que causou o incêndio? O IGP explica que a conclusão, assinada em julho de 1976, apontou que o fogo teve origem na ação de corpo ígneo, um cigarro ou um palito de fósforo, caído ou lançado, de forma acidental ou proposital, sobre material altamente inflamável. O ponto inicial teria sido nos fundos do primeiro andar, próximo à escada de emergência, onde estavam armazenadas embalagens plásticas, palha, além de tintas e solventes. A fagulha inicial provocou explosões que ampliaram rapidamente o fogo. Os documentos também revelaram que os extintores eram suficientes, até em número maior que o exigido. Contudo, a posição em que estavam e a rápida obstrução das rotas impediram seu uso eficaz. No mesmo dia do incêndio, inclusive, era realizada uma vistoria nesses equipamentos.

Legado e memória

O incêndio das Lojas Renner completa 50 anos como um marco na história de Porto Alegre e do Brasil, lembrado não apenas pelo número de vítimas, mas também pelas lições deixadas sobre segurança contra incêndios em edificações comerciais. A tragédia impulsionou mudanças nas normas técnicas e na fiscalização, visando evitar que episódios semelhantes se repitam.