Uber busca parceria com governos para transformar mobilidade urbana, afirma diretor global
Uber quer ser parceira dos governos, diz diretor de mobilidade

Uber busca parceria com governos para transformar mobilidade urbana, afirma diretor global

O avanço da mobilidade urbana em grandes centros urbanos e o papel fundamental das plataformas digitais no transporte têm ocupado um lugar central nos debates sobre infraestrutura, inovação e eficiência econômica. Em mercados emergentes como o Brasil, o desafio consiste em conciliar crescimento, congestionamento e acesso a serviços em cidades cada vez mais pressionadas.

Responsável pela operação de mobilidade da Uber em mais de 70 países, Pradeep Parameswaran acompanha de perto essas transformações e a evolução do setor em escala global. Em entrevista exclusiva, o executivo analisou o papel do Brasil na estratégia da empresa e as tendências que devem moldar o futuro da mobilidade nos próximos anos.

Desafios das cidades emergentes e o papel da Uber

Qual é o maior desafio da mobilidade em cidades emergentes como o Brasil? "Eu cresci na Índia, em cidades muito grandes, como Mumbai, e vivi muitos anos em Délhi. E o que vejo é que esse é um problema comum a várias cidades do mundo, como São Paulo, Cidade do México, cidades na Indonésia. O principal desafio é o congestionamento", afirmou Parameswaran.

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O diretor destacou que está cada vez mais difícil se deslocar, e isso tem impacto direto na produtividade e nos custos das cidades. "As pessoas passam muito tempo no trânsito, e isso afeta a economia como um todo. Paralelamente, conforme a renda cresce, mais pessoas querem comprar carros, e cada novo carro só aumenta esse problema. Por isso, a mobilidade compartilhada precisa ser parte central da solução, junto com o transporte público."

Como a Uber se insere nesse cenário? "Hoje somos uma parte relevante do ecossistema de transporte e queremos contribuir para tornar a mobilidade mais fácil, acessível e confiável. Em mercados emergentes, isso passa por ampliar a infraestrutura de transporte compartilhado e, principalmente, por nos tornarmos parceiros mais fortes do transporte público", explicou.

Parameswaran ressaltou que, muitas vezes, o transporte público não cobre toda a cidade, e chegar até uma estação pode ser difícil. "Se ela está a dois ou três quilômetros de distância, caminhar nem sempre é uma opção. Então, nosso papel também é ajudar nesse primeiro e último trecho, permitindo que mais pessoas utilizem o sistema como um todo."

Brasil como mercado estratégico e polo de inovação

O que torna o Brasil um mercado tão estratégico para a Uber? "O Brasil continua sendo o maior mercado da Uber no mundo em volume, o que é significativo considerando o tamanho global da empresa. São Paulo, por exemplo, é uma das cidades mais importantes para nós, mas há várias outras no país com grande relevância", disse o executivo.

Além disso, o Brasil se tornou um polo de inovação dentro da companhia. "Muitas soluções que hoje fazem parte da nossa operação global surgiram aqui, o que mostra como o país não é apenas um mercado consumidor, mas também um gerador de ideias."

Que tipo de inovação nasceu no Brasil? "Um exemplo claro é o Uber Moto. O Brasil não foi o primeiro país a lançar esse produto, isso aconteceu em Bangladesh, mas foi o mercado que mais rapidamente adotou e escalou o modelo. Isso tem muito a ver com as características locais, como o trânsito intenso e a busca por soluções mais acessíveis", contou Parameswaran.

O diretor relatou que usou o serviço recentemente no Rio de Janeiro e a experiência foi muito eficiente: "é mais barato e, em muitos casos, mais rápido". Outro exemplo é o crescimento das soluções de logística local, que ganharam força especialmente depois da pandemia, quando surgiu a necessidade de transportar itens de um ponto a outro sem deslocamento físico das pessoas.

O Brasil também ganha relevância em tecnologia? "Sim. Estamos ampliando nossa presença tecnológica no país. Já temos centros técnicos em São Paulo e anunciamos recentemente a abertura de um novo no Rio de Janeiro. Isso mostra que o Brasil passou a ser também uma fonte de talento e inovação tecnológica para a empresa, e não apenas um mercado de operação", afirmou.

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Crescimento, preços e o futuro da mobilidade

Onde está o principal vetor de crescimento da Uber hoje? "O crescimento está na diversificação. A Uber começou como um único produto, como o UberX, mas hoje estamos caminhando para um portfólio mais amplo de soluções. Em alguns países, já integramos ônibus, trens e outros modais dentro da plataforma", explicou Parameswaran.

A ideia é oferecer diferentes opções e permitir que o usuário combine essas alternativas em uma única jornada. "O nosso diferencial está na capacidade de conectar essas redes, aumentar a eficiência e, com isso, reduzir custos para o usuário."

O preço ainda é um fator limitante para o acesso? "O preço é sempre um tema sensível, especialmente em um serviço de massa como o nosso. Houve recentemente discussões sobre aumento de preços, mas os nossos dados mostram que eles cresceram abaixo da inflação", disse o diretor.

É importante lembrar que, se o serviço deixa de ser acessível, a demanda cai, e isso também impacta a renda dos motoristas. "Existe um equilíbrio importante entre preço, utilização e sustentabilidade do modelo."

Inteligência artificial e tendências futuras

Qual é o papel da inteligência artificial nesse cenário? "A aplicação mais visível da inteligência artificial será na autonomia, com veículos autônomos, que representam uma das maiores transformações no mundo físico. Mas, na prática, a Uber já utiliza IA há muito tempo", afirmou Parameswaran.

A empresa realiza cerca de 10 bilhões de viagens por ano globalmente, e operar nessa escala exige sistemas altamente sofisticados de otimização. "Com o avanço da inteligência artificial generativa, estamos conseguindo aplicar essas tecnologias de forma ainda mais abrangente."

Onde mais a IA deve avançar? "Um dos principais avanços deve ocorrer no atendimento ao cliente. Trata-se de uma área complexa, que envolve alto volume e múltiplas situações. Estamos investindo para tornar esse processo mais eficiente e escalável, utilizando tecnologia para melhorar a experiência do usuário."

Como você vê o futuro da mobilidade? "Vejo uma combinação de tendências. Eletrificação, autonomia e modelos compartilhados devem avançar juntos. Há também uma mudança geracional importante, uma vez que as pessoas mais jovens estão menos interessadas em possuir um carro e mais abertas a usar serviços sob demanda", analisou o diretor.

Parameswaran citou uma frase interessante de um ex-prefeito de Barcelona, na Espanha: "que dizia que um país desenvolvido não é aquele onde todos têm carro, mas onde até os mais ricos usam transporte público. Acho que isso resume bem a direção."

Regulação do trabalho e mensagem ao governo brasileiro

E como a Uber vê o debate sobre regulação do trabalho no Brasil? "A economia de plataformas cresceu muito nos últimos anos e criou oportunidades para pessoas que antes não tinham acesso a esse tipo de renda. Ao mesmo tempo, ela é diferente do trabalho tradicional, porque oferece flexibilidade e isso é algo que os trabalhadores valorizam", disse Parameswaran.

A regulação é importante, pois traz previsibilidade e proteção, mas precisa ser construída levando em conta essas diferenças. "Existem exemplos em outros países que buscam equilibrar proteção social com flexibilidade, e acreditamos que esse é o caminho."

Qual mensagem a empresa quer passar ao governo brasileiro? "Queremos ser vistos como parceiros. Acreditamos que a tecnologia pode contribuir para melhorar o sistema de transporte como um todo, tornando-o mais seguro, acessível e eficiente. Estamos dispostos a colaborar, compartilhar conhecimento e investir para que isso aconteça", finalizou o diretor global de Mobilidade da Uber.