Alta do combustível eleva cancelamentos de voos no Brasil em maio
Alta de combustível eleva cancelamentos de voos no Brasil

Companhias aéreas brasileiras começam a contabilizar os prejuízos causados pela forte alta no preço dos combustíveis, impulsionada pela escalada dos conflitos no Oriente Médio nos últimos meses. O setor projeta um aumento significativo no número de cancelamentos, especialmente na aviação regional, e especialistas alertam para impactos financeiros futuros nas empresas.

Abear descarta risco de desabastecimento, mas confirma redução de voos

Por enquanto, a Associação Brasileira das Empresas Aéreas (Abear), que representa Gol, Azul e Latam, não vê risco de falta de combustível nos próximos meses, já que a maior parte do querosene de aviação (QAV) utilizado no país é produzida internamente. No entanto, Juliano Norman, presidente da entidade, afirma que o aumento das passagens devido à alta dos combustíveis pode desestimular a demanda. Por isso, as companhias já estão ajustando suas malhas, com redução dos voos programados.

Um levantamento exclusivo da Abear, com base em dados da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), mostra que o Brasil registrou uma queda de 3,3% no número de voos projetados para maio, considerando apenas o mercado doméstico regular. Em 2 de abril, estavam previstos 2.193 voos diários para maio; em 6 de maio, esse número caiu para 2.121. No total, são 2.225 voos a menos em todo o país em relação à projeção inicial.

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Norman alerta que, se a situação dos combustíveis não melhorar, os cancelamentos devem continuar crescendo. Segundo ele, a aviação regional será mais afetada do que rotas movimentadas como a ponte aérea Rio-São Paulo. "Há um limite para o repasse de custos. Mercados premium absorvem mais; os outros, menos. Em alguns casos, fica simplesmente inviável", afirma.

Resultados trimestrais revelam impacto financeiro

Nos balanços trimestrais divulgados esta semana, as companhias reportaram prejuízos financeiros decorrentes da alta dos combustíveis. A Latam informou que o conflito gerou um impacto de US$ 40 milhões (cerca de R$ 200 milhões) no primeiro trimestre de 2026. A empresa revisou suas projeções: antes estimava o barril de petróleo a US$ 90; agora, projeta US$ 170 no segundo e terceiro trimestres e US$ 150 no final do ano. A margem de Ebitda para 2026 caiu de US$ 4,2-4,6 bilhões para US$ 3,8-4,2 bilhões. Para junho de 2026, a Latam prevê crescimento de 8% na capacidade doméstica (ASK) em relação a junho de 2025, uma redução de 3% em relação ao planejado.

Jerome Cardier, CEO da Latam, afirmou que a empresa monitora com parceiros comerciais um potencial risco de falta de QAV, mas que, por enquanto, não há risco de desabastecimento nos destinos onde opera. "Isso depende do que acontecer nas próximas semanas e meses", disse.

Na Azul, o CEO John Rodgerson relatou que o fluxo de caixa foi impactado negativamente pela redução no ATL (valor dos bilhetes vendidos antes da viagem), reflexo dos efeitos da guerra no Irã e da menor capacidade operacional. Ele considera o impacto pontual, enquanto a capacidade se normaliza.

A Gol, por ser de capital fechado, não divulga resultados trimestrais e se manifesta por meio da Abear.

Especialistas apontam impactos diferenciados

Rafael Minotto, analista da Ciano Investimentos, avalia que a Gol será a mais prejudicada entre as três maiores, por operar majoritariamente no mercado doméstico em rotas de alta competição. Já a Azul tem vantagem em rotas exclusivas, e a Latam, como grupo internacional, possui maior poder de barganha na negociação global de combustível. Adalberto Febeliano, ex-diretor da Azul, concorda que a Azul tem vantagem em rotas sem concorrência, mas ressalta que o custo do combustível afeta todas as rotas.

O CEO da Embraer, Francisco Gomes Neto, disse que a fabricante ainda não sentiu efeitos da alta dos combustíveis ou dos cancelamentos, e as vendas seguem normais tanto na aviação comercial quanto na executiva. Internamente, a diretoria reforça a gestão de custos e eficiência para se preparar para possíveis impactos futuros.

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