O veto do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao projeto de lei que altera a dosimetria das penas dos condenados pelos atos de 8 de janeiro de 2023 gerou um efeito colateral significativo na política nacional. Segundo análise do cientista político Adriano Cerqueira, a decisão isolou o governo no Congresso Nacional, rompendo um frágil processo de pacificação entre os grupos de centro e direita.
Pacificação rompida no Legislativo
Em entrevista ao programa Ponto de Vista, Cerqueira avaliou que, antes do veto presidencial, o projeto já havia cumprido um papel importante de conciliação entre as principais bancadas parlamentares. O PL da Dosimetria, de certo modo, já pacificou os grupos de centro, centro-direita e direita no Congresso, afirmou o analista.
A proposta surgiu como uma alternativa a uma anistia ampla, defendida por setores mais radicais, e conseguiu reunir um apoio expressivo de diferentes partidos. Sua aprovação por larga maioria demonstrava, na visão do especialista, que o tema do 8 de Janeiro estava encaminhado no âmbito do Legislativo. O Congresso, como um todo, votou esse projeto com apoio significativo. Esse campo político estava pacificado, destacou Cerqueira.
Estratégia eleitoral e isolamento do Planalto
Com o veto, quem ficou claramente fora desse processo de pacificação foi a esquerda, a extrema esquerda e o próprio Lula com o PT, conforme apontou o cientista político. Na leitura de Cerqueira, o governo optou por manter o tema na agenda pública como um instrumento político, especialmente em um ano eleitoral como 2026.
A estratégia do Planalto passa por reforçar o discurso da defesa da democracia e da oposição ao que classifica como golpismo, mesmo que essa postura amplie o atrito com outros setores do espectro político. O governo quer colocar na agenda eleitoral a pauta dos inimigos da democracia. Isso interessa mais à sua base ideológica, analisou.
Cerqueira também comentou o ato em defesa da democracia promovido pelo presidente Lula no Palácio do Planalto. Para ele, o evento, que teve adesão concentrada em partidos e movimentos de esquerda, revelou o isolamento político do governo. Foi um ato esvaziado, com pouca adesão popular e sem a presença dos presidentes da Câmara e do Senado, disse. A iniciativa, em sua avaliação, teve menos o objetivo de construir consensos amplos e mais a função de reaproximar Lula de sua base eleitoral mais fiel.
Impacto no cenário eleitoral e rearranjo da oposição
O veto ao PL da Dosimetria contribuiu para afastar ainda mais o governo de outros grupos políticos relevantes. Esse movimento isolou a Presidência e o PT em relação a setores que agora discutem uma adesão mais clara a chapas de oposição, avaliou Cerqueira.
No horizonte político, o analista enxerga uma reorganização do campo oposicionista, com diferentes hipóteses ainda em jogo — desde uma candidatura de centro-direita até nomes ligados ao bolsonarismo. O cenário segue aberto, mas o que está claro é que o veto reforçou a divisão e empurrou o debate para um confronto mais direto com o Lula, concluiu.
Para Adriano Cerqueira, a tentativa de pacificação institucional, representada pelo projeto aprovado no Congresso, acabou se transformando em mais um elemento da polarização que deve marcar o caminho até as próximas eleições presidenciais. A decisão do dia 12 de janeiro de 2026, portanto, ressoará no cenário político nacional nos meses que antecedem o pleito.