Novo embate sobre Pix: Haddad desmente Nikolas Ferreira sobre taxação
Haddad desmente Nikolas Ferreira sobre taxação do Pix

Um novo capítulo na disputa política envolvendo o sistema de pagamentos Pix voltou a acirrar os ânimos entre o governo Lula e parlamentares da oposição bolsonarista. O centro da controvérsia é uma alegação de que transferências acima de R$ 5 mil seriam automaticamente taxadas pela Receita Federal, uma informação que foi categoricamente negada pelo Ministro da Fazenda, Fernando Haddad.

A origem da polêmica

O debate foi reacendido após uma publicação do deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG), em 13 de janeiro de 2026. Em um vídeo que rapidamente ganhou alcance nas redes sociais, o parlamentar afirmou que uma portaria da Receita Federal de agosto de 2025 teria revogado uma medida anterior e reinstaurado o monitoramento de transações Pix, o que, em sua visão, poderia levar autônomos a pagarem mais impostos.

Nikolas Ferreira citou que, pela portaria, instituições financeiras devem informar à Receita movimentações acima do valor de cinco mil reais. "Se você movimentar mais que 5.000 reais por mês pelo Pix e isso não bater com o que você declarou no imposto de renda, a Receita vai saber, e você pode cair numa malha fina", alertou o deputado. A mensagem foi replicada por outros nomes da oposição, como o senador Carlos Portinho (PL-RJ).

A resposta do governo e a desclassificação como fake news

A reação do Ministro Fernando Haddad foi rápida e direta. Ele classificou as afirmações como "fake news" e vinculou a disseminação dessa desinformação ao favorecimento do crime organizado. Haddad lembrou que uma situação similar ocorreu no início de 2025 e que a republicação da portaria em agosto teve como objetivo único o combate à lavagem de dinheiro e ao financiamento de atividades ilícitas.

"Eles tentaram fazer isso no ano passado, depois se viu que aqueles vídeos de fake news acabaram favorecendo o crime organizado, e nós tivemos que republicar a portaria para combatê-lo", afirmou o ministro. Ele reforçou que a medida visa equiparar a fiscalização sobre fintechs e carteiras digitais à dos bancos tradicionais, sem criar qualquer nova tributação sobre o cidadão comum.

Repercussão política e ameaça de denúncia

O embate extrapolou as redes sociais e mobilizou outros parlamentares da base governista. O deputado Paulo Pimenta (PT-RS) questionou publicamente a quem interessaria a disseminação de notícias falsas. De forma mais contundente, a deputada Erika Hilton (PSOL-SP) anunciou que iria denunciar Nikolas Ferreira ao Ministério Público Federal (MPF).

Em suas declarações, Erika Hilton acusou o deputado de "espalhar mentiras sobre o Pix para causar pânico" e de criar uma narrativa que beneficia organizações criminosas. A parlamentar foi enfática ao afirmar: "Não, a Receita Federal não colocará todo mundo na malha fina".

O que diz, de fato, a portaria da Receita?

O cerne da discussão técnica reside na Portaria da Receita Federal de agosto de 2025. O texto determina que operadoras de pagamento, como as responsáveis pelo Pix, passem a reportar ao fisco movimentações financeiras consideradas suspeitas ou acima de determinado patamar, seguindo regras já aplicadas a bancos.

Os principais pontos são:

  • Não há criação de um novo imposto sobre transações via Pix.
  • O monitoramento tem foco no combate a crimes financeiros, como lavagem de dinheiro.
  • A obrigação de reporte é da instituição financeira ou da operadora de pagamento, não do cidadão.
  • O cruzamento de dados serve para identificar inconsistências entre o declarado e o movimentado, prática já existente para outras modalidades.

O governo argumenta que a medida é de controle e fiscalização, não de tributação, e é um padrão internacional para sistemas financeiros modernos. A oposição, por outro lado, enxerga nela um potencial instrumento de aumento da carga tributária sobre pequenos empreendedores e autônomos, gerando apreensão na população.

Este é o segundo ano consecutivo em que o mesmo tema gera um embate público acalorado, evidenciando a sensibilidade do assunto e o uso político de narrativas sobre o sistema de pagamentos instantâneos, amplamente adotado no Brasil.