Tarô conquista celebridades e geração Z como ferramenta de autoconhecimento
Tarô vira fenômeno pop entre celebridades e geração Z

Do psiquiatra suíço Carl Jung (1875-1961) vem uma frase que poderia servir de epígrafe para a resiliência de um baralho que, há ao menos sete séculos, tem se mostrado capaz de renovar seu apelo como fonte de especulação ocultista sobre a vida e o destino: “Os símbolos são a linguagem do inconsciente”. Hoje, porém, as cartas do tarô ganharam uma nova interface: a tela do celular. Entre vídeos de poucos segundos e leituras coletivas que parecem sussurrar verdades íntimas, a prática deixou de ser um ritual intimista para se tornar linguagem pop — meio terapia, meio entretenimento.

O renascimento digital do tarô

Os números corroboram a virada. Hashtags ligadas ao tema já ultrapassam 16 bilhões de visualizações no TikTok, com cerca de 60% dos usuários afirmando que o interesse nasceu nas redes sociais. O negócio global de cartas de tarô e oráculos movimenta 1,48 bilhão de dólares por ano — boom que se reflete no mercado editorial, com livros e tabuleiros frequentemente figurando entre os mais vendidos da Amazon. O interesse renovado pelo tarô é impulsionado, sobretudo, por pessoas entre 18 e 34 anos. Mais um dado revelador: 85% delas dizem usar as cartas como ferramenta de reflexão pessoal, enquanto 40% as incorporam como apoio emocional. Ou seja, o novo mantra é: menos previsão sobre o futuro, mais autoconhecimento.

A conexão entre estética e afeto

Para a taróloga e especialista em comportamento Susie Marcus, o fenômeno une estética e afeto: “A internet abriu uma porta para o tarô chegar às pessoas: você vê uma tiragem de cartas e, se fizer sentido, cria uma conexão imediata”. Foi assim com ela: um vídeo despretensioso publicado após a pandemia virou avalanche, e hoje, com dezenas de milhares de seguidores e agenda lotada, Susie realiza leituras coletivas. “O algoritmo ajuda, mas o que sustenta é a consistência dessa conexão”, defende.

Banner largo do Pickt — app de listas de compras colaborativas para Telegram

O fascínio histórico e cultural

Há algo de profundamente contemporâneo no novo modo de explorar o tarô. Leituras rápidas, acessíveis, quase divertidas são um contraponto ao ritual tradicional de praticá-lo, que exigia tempo e uma certa solenidade. É justamente esse espírito mais informal que atrai os jovens. O fascínio não é de agora: os primeiros baralhos surgiram na Itália, no final do século XIV, como um jogo. Só entre os séculos XVII e XVIII, com o avanço do interesse pelo ocultismo, passaram a ser usados como ferramenta de vidência. O baralho clássico, com 78 cartas — sendo 22 delas correspondentes aos chamados arcanos maiores —, carrega imagens que atravessaram séculos e influenciaram artistas, escritores e estilistas.

Tarô na moda e na música

Essa força cultural do tarô surge em várias frentes. A moda, por exemplo, sempre se rendeu a seu imaginário simbólico: Maria Grazia Chiuri já dedicou uma coleção inteira ao tema na Dior, graças à paixão do fundador, Christian Dior, pelas cartas; o atual chefe criativo da maison, Jonathan Anderson, vai na mesma onda — tanto que uma foto sua com tarô viralizou nas redes e deu aura de glamour às cartas, que agora circulam com naturalidade entre as celebridades. A cantora Dua Lipa carrega um baralho na bolsa e o consulta como ritual diário. Anya Taylor-Joy usa o tarô como prática pessoal e entretenimento — “É uma forma divertida de conexão”, disse a atriz. Na música, o simbolismo atravessa décadas: Madonna, Björk, Lana Del Rey e Lady Gaga incorporaram referências às cartas em suas músicas e shows.

O baralho cigano e a nova geração

Nesse cenário, uma vertente similar ao tarô voltou a ganhar força, especialmente no Brasil: o baralho cigano, ou Lenormand. Mais direto, cotidiano e lúdico, ele se tornou queridinho nas redes. Popularizado no século XIX a partir das leituras da cartomante francesa Marie-Anne Lenormand — que teria atendido figuras como Napoleão Bonaparte —, o oráculo tem 36 cartas com símbolos mais autoexplicativos. “É o mais ‘fofoqueiro’ dos baralhos, intuitivo e fácil de entender”, diz o cartomancista Markos Domingos. “É uma forma de autoconhecimento conectada à vida real”, acrescenta a especialista em baralho cigano Morgana Farah.

Banner pós-artigo do Pickt — app de listas de compras colaborativas com ilustração familiar

O tarô como pausa reflexiva

Como acontece com tudo que viraliza, o conteúdo do tarô se reinventa: de conselhos do dia a previsões rápidas, tudo é pensado para caber no ritmo acelerado do feed. Outra novidade é que agora não se busca só o amanhã nas cartas, mas o agora: o tarô é usado como ferramenta para trazer clareza e direção. Talvez seja essa a chave de seu retorno triunfal: num mundo saturado de dados, métricas e respostas rápidas, jogar tarô oferece uma pausa — um espaço de escuta e reflexão. E convém lembrar, para não perder o fio da meada, que o próprio Jung, o rei dos símbolos, usava o tarô. As cartas estão na mesa — ou melhor, na tela.