São Paulo registra primeiro caso de sarampo de 2026 em bebê não vacinado
O estado de São Paulo confirmou oficialmente no dia 11 de janeiro o primeiro caso de sarampo do ano de 2026. A vítima é um bebê de apenas seis meses de idade que contraiu a doença durante uma viagem familiar à Bolívia no mês de janeiro. A criança não havia recebido a vacina tríplice viral, que protege contra sarampo, caxumba e rubéola, pois ainda não tinha atingido a idade mínima recomendada de 12 meses para imunização.
Vulnerabilidade biológica dos bebês menores de um ano
A razão para essa recomendação etária é fundamentalmente biológica. Durante a gestação, os bebês recebem anticorpos maternos que, nos primeiros meses de vida, podem interferir na resposta imunológica à vacina. "A mãe que já teve a doença ou já tomou a vacina passa os anticorpos na gravidez para o filho. Por isso a gente só recomenda vacinar depois de 12 meses", explica o infectologista pediatra Renato Kfouri.
Entretanto, essa proteção materna não é absoluta. "Nem sempre eles são suficientes para prevenir a doença", alerta Kfouri. Essa janela de vulnerabilidade torna as crianças menores de um ano especialmente suscetíveis quando expostas ao vírus do sarampo, situação que se agrava em contextos de viagens para regiões com transmissão ativa da doença.
Estratégia da 'dose zero' para proteção parcial
Para bebês entre seis meses e um ano que precisam viajar para áreas com circulação ativa do sarampo, os especialistas em imunização recomendam uma estratégia conhecida como "dose zero". Esta vacinação antecipada oferece proteção parcial, mas não substitui as duas doses regulares do calendário vacinal, aplicadas aos 12 e 15 meses de idade, e por isso não é contabilizada no esquema oficial.
"Entre seis meses e um ano, você avalia se esse bebê está indo para uma situação de risco. Sem dúvida, ele deve fazer essa dose extra para ir com mais segurança", afirma Mônica Levi, presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm). Antes dos seis meses, a vacina não tem indicação, pois a concentração de anticorpos maternos ainda é muito elevada para permitir qualquer resposta imunológica significativa.
Cenário epidemiológico preocupante nas Américas
O alerta ganha urgência diante do cenário epidemiológico atual. O número de casos de sarampo nas Américas cresceu impressionantes 32 vezes entre 2024 e 2025, levando a Opas, escritório regional da Organização Mundial da Saúde, a emitir um alerta formal e pedir ação imediata dos países. Em 2025, foram registrados 14.891 casos em 13 países do continente.
A Bolívia, destino da viagem do bebê paulista, registrou 597 casos no ano passado e continua apresentando transmissão ativa da doença. Nos Estados Unidos, a situação é classificada como epidêmica, com 2.224 casos e três mortes em 2025, em meio a um cenário de desconfiança pública nas vacinas. No Brasil, foram confirmados 38 casos em 2025, sendo dez deles contraídos fora do país.
Disponibilidade limitada da dose zero no sistema público
Apesar da recomendação especializada, a dose zero não faz parte do calendário oficial do Programa Nacional de Imunizações (PNI) e só é ativada na rede pública em situações de surto declarado no território brasileiro. "A ação é programática. Não temos essa recomendação de vacinação extraordinária e individualizada", esclarece Eder Gatti, diretor do PNI no Ministério da Saúde.
Algumas cidades brasileiras mantêm centros públicos de medicina do viajante que podem avaliar casos individualmente, mas essa não é uma regra generalizada. Para a maioria das famílias, a dose zero precisará ser obtida na rede privada de saúde, representando um custo adicional para a proteção dos bebês em viagens de risco.
Calendário vacinal do primeiro ano e preocupações ampliadas
O calendário do Sistema Único de Saúde para o primeiro ano de vida oferece proteção contra diversas doenças:
- Até os seis meses: hepatite B, tuberculose, poliomielite, rotavírus, coqueluche, tétano, difteria, meningite por Haemophilus, pneumonia e meningite C
- Aos seis meses: vacina contra gripe (duas doses com intervalo de um mês)
- Aos nove meses: vacina contra febre amarela
A SBIm recomenda algumas vacinas adicionais ou com formulações mais abrangentes que as oferecidas pelo SUS, como a pneumocócica 20-valente em substituição à 10-valente disponível nos postos de saúde. No entanto, o calendário básico público já cobre as principais doenças preveníveis na infância.
Orientações para viagens com bebês no Brasil e exterior
A preocupação com a proteção vacinal não se limita a viagens internacionais. O Brasil apresenta perfis epidemiológicos muito distintos entre suas regiões, com áreas de risco para febre amarela, dengue, malária e leishmaniose que exigem atenção específica conforme o destino. "Vacinação em dia é garantia de proteção para coqueluche, pneumonia, diarreia por rotavírus, febre amarela, gripe. Não muda nada viajar dentro ou fora do Brasil", reforça Kfouri.
O imunologista Luiz Vicente Rizzo, diretor de pesquisa do Hospital Israelita Albert Einstein, adverte: "Se a criança não está com a vacinação completa, a ida a qualquer lugar é arriscada". Em casos de destinos de alto risco para bebês muito jovens, alguns especialistas defendem que a melhor decisão pode ser simplesmente adiar a viagem.
A orientação unânime dos especialistas converge em um ponto fundamental: consultar o pediatra antes de qualquer viagem com bebê, verificar cuidadosamente o perfil epidemiológico do destino e avaliar se há alguma dose vacinal que possa ser antecipada para maior segurança da criança.



