Mercado de implantes hormonais: brecha, lucro e riscos expostos
Implantes hormonais: brecha, lucro e riscos à saúde

O mercado de implantes hormonais se transformou em um negócio bilionário no Brasil, sustentado por uma brecha regulatória que permite a médicos prescrever, treinar outros profissionais e vender os dispositivos, lucrando em todas as etapas. Cada implante é adquirido por cerca de R$ 200 em farmácias de manipulação e repassado a pacientes por valores entre R$ 4 mil e R$ 12 mil.

Brecha regulatória e proibição parcial

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) proíbe o uso de implantes com hormônios anabolizantes, como gestrinona, oxandrolona e testosterona, para fins estéticos. No entanto, médicos passaram a comercializar esses dispositivos como tratamento para condições como endometriose, síndrome dos ovários policísticos (SOP), lipedema e sintomas da menopausa, mesmo sem evidências científicas robustas. Essa prática se apoia em uma brecha: a legislação permite a manipulação de ingredientes farmacêuticos ativos aprovados pela Anvisa, mas não especifica a via de administração, abrindo espaço para distorções.

Produção em larga escala e irregularidades

Embora a lei exija que farmácias de manipulação produzam implantes apenas sob encomenda individual, o g1 teve acesso a notas fiscais que indicam produção em escala industrial. A Elmeco, uma das maiores farmácias do país, registrou pedidos de 400 implantes padronizados de gestrinona e testosterona, prática considerada irregular. O Ministério Público da Bahia solicitou a interdição da empresa por manipulação e comercialização de medicamentos controlados sem prescrição médica adequada. A Elmeco afirma atuar em conformidade com as normas sanitárias.

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Conflito de interesse e modelo de negócio

O Conselho Federal de Medicina (CFM) aponta indícios de conflito de interesse no modelo que integra prescrição, cursos e venda de implantes. Médicos como Gabriel Almeida e Luiz Paulo Schaefer Pinto oferecem treinamentos para outros profissionais, enquanto mantêm vínculos com farmácias de manipulação parceiras. O CFM reforça que essa triangulação pode configurar infração ética, especialmente quando o médico induz o paciente a adquirir produtos de farmácias das quais é sócio ou recebe benefícios.

Mulheres como alvo principal

As redes sociais são a principal vitrine desse mercado, com foco em mulheres. Médicos associam alterações hormonais a perda de vitalidade e prometem melhora da disposição, libido e desempenho nos treinos. A testosterona é um dos temas mais recorrentes, mesmo sem respaldo científico para as promessas. Em cursos, profissionais ensinam estratégias para transformar inseguranças femininas em argumento de venda, abordando temas como autoestima, vida sexual e medo de traição.

Riscos à saúde e casos graves

Especialistas alertam que os implantes hormonais podem causar efeitos graves, como infarto, AVC e trombose. O g1 identificou o caso de Ana Karina Porto Oliveira, que sofreu infarto renal após receber um implante com gestrinona, metformina e estradiol. A perícia judicial estabeleceu nexo causal entre o implante e a complicação. O médico Bruno Jacob, que aplicou o implante, foi condenado a indenizar a paciente. Ele alega que desfechos clínicos podem ser multifatoriais.

Pressão de entidades médicas e ações legais

Sociedades como a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) e a Febrasgo classificam o cenário como um grave problema de saúde pública. Em cartas à Anvisa e ao Ministério da Saúde, pedem medidas mais duras de controle. O Ministério Público Federal também cobrou a proibição total dos implantes hormonais manipulados. A Anvisa não se pronunciou até a publicação desta reportagem.

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