Noelia Castillo, espanhola que lutou por eutanásia, morre após procedimento legal
Espanhola que lutou por eutanásia morre após procedimento legal

Noelia Castillo, espanhola que lutou por eutanásia, morre após procedimento legal

A espanhola Noelia Castillo, que morreu nesta quinta-feira (26) após passar por uma eutanásia legalmente autorizada, concedeu sua última e única entrevista quatro dias antes do procedimento para a emissora espanhola Antena 3. Na conversa com a repórter, Noelia desabafou profundamente sobre seu desejo e sobre a recusa da família diante de sua decisão.

O desabafo final: "Só quero ir embora em paz"

"Eles me dizem: 'Você vai embora e nós ficamos aqui com toda a dor da sua partida', mas eu penso: e toda a dor que eu já sofri? Só quero ir embora em paz e deixar de sofrer", afirmou a jovem durante a entrevista. Noelia expressou que sua vontade era desaparecer, declarando: "Sempre me senti sozinha, nunca me senti compreendida, nunca tiveram empatia comigo. Não gosto do rumo que o mundo e a sociedade estão tomando; prefiro desaparecer, porque está cada vez pior".

Histórico de sofrimento físico e emocional

Durante a entrevista, Noelia relatou detalhadamente o sofrimento físico e emocional que enfrentava diariamente. Segundo ela, tinha dores constantes e extrema dificuldade para dormir, além de completa falta de disposição para atividades cotidianas. "Dormir é muito difícil para mim, sinto dores nas costas, nas pernas, dor física diária. Não tenho vontade de nada, nem de sair, nem de comer, só descansar", disse.

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Ela contou que enfrentava problemas de saúde mental desde a adolescência e que foi diagnosticada com transtornos psiquiátricos, incluindo:

  • Transtorno obsessivo-compulsivo (TOC)
  • Transtorno de personalidade borderline

Traumas e tentativas anteriores

Noelia também relembrou episódios traumáticos ao longo da vida, incluindo:

  1. Dificuldades familiares persistentes
  2. Múltiplas tentativas de suicídio
  3. Internações repetidas em centros psiquiátricos

Apesar desse histórico, ela afirmou que sua condição não a deixava totalmente incapacitada. "Não é verdade que eu esteja acamada. Eu me levanto, tomo banho sozinha, me maquio, me organizo sozinha", explicou. Mesmo assim, manteve-se decidida: "Já não posso mais com essa família, com as dores, com tudo o que me atormenta na cabeça. Não quero ser exemplo de ninguém, é simplesmente a minha vida".

Conflito familiar e posição firme

Questionada se se arrependia do procedimento, Noelia foi direta: "Não, eu tinha isso muito claro desde o início. A felicidade de um pai ou de uma mãe não deve estar acima da felicidade de uma filha", concluiu.

A mãe de Noelia, Yolanda Ramos, também falou ao canal, afirmando que não concordava com a escolha da filha, mas que a respeitava. "Foram três anos de altos e baixos, anos horríveis, em que rezei muito; mas se ela não quiser viver, não aguento mais", disse. Yolanda revelou ainda manter esperança até o último momento: "Não perdi a esperança de que, no último momento, quando colocarem o soro para sedá-la, ela queira parar tudo isso e mudar de ideia".

Histórico médico e acidente

Antes de iniciar o pedido de eutanásia, Noelia já vivia um histórico extenso de sofrimento psicológico. Após episódios de violência sexual, desenvolveu um quadro de intensa fragilidade emocional. Nesse contexto, tentou suicídio ao se lançar de um prédio.

A queda causou uma lesão grave na medula e resultou em paraplegia. Desde então, passou a depender de cadeira de rodas e a conviver com dor crônica e limitações físicas significativas que impactavam profundamente sua qualidade de vida.

Longa batalha judicial

O procedimento de eutanásia foi realizado depois de um extenso processo de avaliação médica e disputas judiciais que se estenderam por aproximadamente 601 dias. A condição de Noelia foi avaliada por uma comissão independente, que concluiu que ela atendia aos critérios previstos na legislação espanhola para a eutanásia.

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Antes da aprovação final, o pai da jovem tentou barrar a decisão judicialmente, argumentando que ela não teria condições psicológicas adequadas para decidir sobre a própria morte. A contestação levou o caso a diferentes instâncias da Justiça espanhola, incluindo tribunais superiores e até cortes europeias.

Apesar dos recursos, as decisões mantiveram o entendimento de que a jovem atendia aos critérios legais para a eutanásia. Segundo a mídia espanhola, pareceres técnicos indicaram que ela apresentava:

  • Quadro clínico irreversível
  • Dependência funcional importante
  • Dor contínua e persistente
  • Sofrimento considerado incapacitante

Estes são elementos exigidos pela legislação espanhola para autorização do procedimento, que foi finalmente realizado após mais de um ano e meio de batalhas legais e avaliações médicas rigorosas.