Livro do CAPS Jaguariúna transforma histórias de pacientes em força para superação
Pacientes do CAPS Jaguariúna ressignificam vida em livro

A experiência de transformar vivências difíceis em narrativas escritas tem sido um caminho poderoso de reconstrução para pacientes do Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) de Jaguariúna. Um livro coletivo, lançado em 2024, deu voz às suas histórias reais, promovendo um impacto profundo na autoestima e nas relações sociais dos participantes.

Histórias que curam: o projeto do livro coletivo

O projeto nasceu de uma oficina de contação de histórias realizada no próprio CAPS. A ideia, idealizada pela técnica de enfermagem Laudecir Araújo, era permitir que os pacientes atendidos pelo serviço pudessem registrar suas trajetórias. O objetivo central foi criar um espaço onde eles se reconhecessem em suas próprias narrativas, transformando experiências individuais de sofrimento em um relato coletivo de força e resiliência.

Para a coordenadora de saúde mental do serviço, Mariana Mancini da Silva, o protagonismo dos pacientes foi elemento fundamental. Ela destaca que as páginas do livro refletem fielmente quem são essas pessoas e os percursos únicos que cada uma trilhou.

O impacto da palavra na jornada de Eliene Soares

Para Eliene Soares, uma das participantes, ver sua história registrada no livro teve um efeito transformador direto. Ela relata que o processo de colocar sua vivência em palavras a fez ganhar coragem e força para lutar. "A minha autoestima, meu relacionamento lá fora com a sociedade, lá em casa, eu tenho mais coragem, mais força para lutar. É emocionante eu saber que a minha história está contada aqui, em palavras", compartilha Eliene.

Seu depoimento integra a série especial "O poder das palavras", exibida pela EPTV, afiliada da TV Globo, que explora como a linguagem influencia emoções, comportamentos e processos de superação. A série vai ao ar até o dia 3 de janeiro de 2026.

A escrita como ferramenta terapêutica e de empatia

Segundo os profissionais do CAPS, a prática de externalizar o sofrimento através da escrita ajuda o paciente a organizar os sentimentos e a ressignificar experiências dolorosas. Laudecir Araújo explica a potência desse método: "A palavra tem o poder de cura. O paciente, quando ele fala, ele organiza os sentimentos. Quando ele lê a história dele, ele ressignifica o sofrimento. E quando outra pessoa lê, gera empatia e quebra o preconceito".

A professora da Faculdade de Educação da Unicamp, Angela Soligo, reforça essa visão. Ela ressalta que o poder das palavras não é mágico, mas está em sua capacidade de influenciar a interpretação que as pessoas fazem de suas próprias experiências. "O poder das Palavras não é um poder mágico. O poder das palavras é o poder de influenciar", afirma. Angela destaca que, usadas com cuidado, as palavras ajudam a construir sentido, fortalecer vínculos e promover acolhimento, especialmente em contextos de sofrimento psíquico.

Mais do que palavras: música e acolhimento no CAPS

O projeto também abraça outras formas de expressão. O compositor Marcos de Oliveira, que frequenta o centro, encontrou na música uma maneira de contar sua história e construir laços. "Não me sinto mais sozinho, tenho amigos para compartilhar. Se precisar de ajuda, esperamos por você", convida o músico, evidenciando o ambiente de apoio mútuo que o CAPS de Jaguariúna busca oferecer.

Iniciativas como essa demonstram como a escrita terapêutica e a arte podem ser aliadas fundamentais no processo de recuperação e empoderamento na saúde mental, transformando histórias de dor em narrativas de superação e esperança.