Estudo com 1 milhão de DNAs revela: transtornos mentais compartilham base genética
Genética explica por que pessoas têm mais de um transtorno mental

Um estudo revolucionário publicado na renomada revista Nature está mudando a forma como a ciência entende os transtornos mentais. A pesquisa, que analisou o material genético de mais de 1 milhão de pessoas, descobriu que condições como depressão, ansiedade, esquizofrenia e transtorno bipolar compartilham uma grande parte de sua base genética.

Quebra-cabeça genético: os cinco grupos de transtornos

O trabalho, conduzido pelo Psychiatric Genomics Consortium – uma rede com mais de 1700 cientistas –, partiu de um fato clínico bem conhecido: as pessoas frequentemente recebem mais de um diagnóstico psiquiátrico ao longo da vida. Para investigar as raízes dessa sobreposição, os pesquisadores mapearam o DNA de indivíduos com 14 condições diferentes, incluindo depressão, ansiedade, transtorno bipolar, esquizofrenia, autismo, TDAH, TOC, anorexia e dependência de substâncias.

Os resultados foram surpreendentes. Em vez de genes únicos para cada doença, os cientistas identificaram 101 regiões do genoma associadas a múltiplos transtornos simultaneamente. Um trecho do cromossomo 11, por exemplo, apareceu ligado a oito condições diferentes.

Com base nesses padrões genéticos compartilhados, o estudo propõe agrupar os transtornos em cinco grandes categorias:

  • Transtornos com comportamentos repetitivos: como anorexia e TOC.
  • Esquizofrenia e transtorno bipolar: que se mostraram geneticamente muito próximos.
  • Condições do neurodesenvolvimento: como autismo e TDAH.
  • Transtornos de sofrimento emocional: como depressão, ansiedade e estresse pós-traumático.
  • Transtornos por uso de substâncias: como dependência de álcool, nicotina e opioides.

O p-factor: a vulnerabilidade genética comum

Além de mapear os grupos, a pesquisa identificou um fator genético de risco comum a todos os transtornos analisados, chamado de p-factor. Essa vulnerabilidade subjacente está associada a uma maior sensibilidade ao estresse, tendência à angústia emocional, solidão e maior risco de pensamentos autolesivos.

Isso sugere que algumas pessoas podem nascer com uma predisposição genética mais ampla para sofrer psicologicamente. Ao longo da vida, essa vulnerabilidade pode se manifestar de formas diferentes, dependendo das experiências pessoais, do ambiente e do contexto social.

Genes que preparam o terreno cerebral

A investigação também revelou quando esses genes de risco compartilhado entram em ação. Muitos deles se ativam durante o desenvolvimento do cérebro, alguns até antes do nascimento. É crucial ressaltar que isso não significa um destino traçado. Em vez disso, indica que parte do risco genético atua cedo, influenciando como o cérebro forma suas conexões básicas.

Os genes identificados não controlam sintomas específicos, mas funções cerebrais amplas, como a comunicação entre neurônios, o equilíbrio químico e o funcionamento das células de suporte. Eles ajudam a "preparar o terreno" neural. Dependendo de outros fatores – como traumas, rede de apoio e ambiente –, esse terreno pode levar a diferentes caminhos na saúde mental.

Limitações e futuro da psiquiatria

Os autores reconhecem uma limitação importante: a maioria dos dados veio de populações com ancestralidade europeia, o que dificulta a aplicação universal dos resultados. Eles defendem a urgência de diversificar os bancos genéticos globais.

Apesar disso, o estudo, publicado em 14 de janeiro de 2026, é visto como um pontapé inicial para uma revolução na psiquiatria. Ele desafia as classificações diagnósticas atuais e abre caminho para um sistema mais alinhado com a biologia do cérebro. No futuro, esse conhecimento pode levar a tratamentos mais eficazes, especialmente para os muitos pacientes que não se encaixam em uma única "caixinha" diagnóstica.