A doença celíaca, uma reação autoimune ao glúten, atinge mais de 2 milhões de brasileiros, mas estima-se que oito em cada dez pessoas com a condição não tenham diagnóstico. O problema, cujos sintomas não se limitam a manifestações gastrointestinais, ainda é subdiagnosticado, conforme alertam especialistas.
O que é a doença celíaca?
Causada por uma reação do sistema imunológico ao contato com o glúten – proteína presente em massas, pães, trigo e cevada –, a doença celíaca provoca comprometimentos intestinais que vão além do aparelho digestivo, podendo afetar a qualidade de vida. De acordo com a Federação Nacional das Associações de Celíacos do Brasil, com base em estimativas globais, a falta de diagnóstico atinge a maioria dos afetados.
Sintomas pouco específicos dificultam diagnóstico
A manifestação de sintomas pouco específicos, a desinformação e a falta de acesso a especialistas contribuem para esse cenário. “A doença celíaca ainda é muito associada apenas aos sintomas gastrointestinais clássicos, como diarreia e dor abdominal, mas muitos pacientes apresentam manifestações diferentes, como anemia persistente, fadiga, alterações de humor, infertilidade ou dificuldade de crescimento na infância”, explica a gastroenterologista Danielle Kiatkoski, diretora científica do Instituto Brasileiro de Doença Celíaca (Ibredoc). “Como esses sinais costumam ser investigados de forma isolada, a doença nem sempre é considerada como hipótese diagnóstica, o que favorece o subdiagnóstico e o atraso no tratamento adequado”, prossegue.
Sintomas além do digestivo
Na infância, um dos sinais mais importantes é o déficit de crescimento. “A inflamação crônica do intestino e a atrofia das vilosidades prejudicam a absorção de nutrientes fundamentais para o desenvolvimento adequado”, afirma Kiatkoski. “Além disso, a inflamação interfere diretamente em mecanismos hormonais ligados ao crescimento e ao amadurecimento, o que pode resultar em baixa estatura, atraso da puberdade e dificuldade de ganho de peso, às vezes na ausência de sintomas digestivos clássicos.”
Na vida adulta, a inflamação sistêmica e as deficiências nutricionais também têm consequências, especialmente entre as mulheres. “A doença pode comprometer a ovulação e a fertilidade, sendo associada a irregularidade menstrual, menopausa precoce e abortamento recorrente em gestantes”, completa a médica.
Diagnóstico precoce é fundamental
A boa notícia é que esses desfechos podem ser evitados com diagnóstico precoce e início de uma dieta sem glúten rigorosa. “Podemos melhorar significativamente a saúde do paciente com diagnóstico precoce e o início de uma dieta sem glúten rigorosa. Isso é capaz de promover a recuperação intestinal e restabelecer o equilíbrio nutricional e metabólico”, destaca Kiatkoski.
Exames que detectam a doença celíaca
O diagnóstico começa com a identificação dos sinais suspeitos em consulta médica, onde o profissional avalia o histórico de vida e realiza avaliação clínica. Exames laboratoriais são fundamentais para confirmar o problema. “Hoje existem testes feitos a partir de coleta de sangue que detectam anticorpos relacionados à doença celíaca, como o anti-transglutaminase IgA, considerado um dos principais marcadores utilizados na triagem”, explica a farmacêutica Aline Oliveira, líder de autoimunidade da Thermo Fisher Scientific. “Esses recursos ajudam a direcionar a investigação de forma mais precoce e assertiva, especialmente em pacientes com sintomas atípicos ou pouco específicos. Quanto mais cedo o diagnóstico é realizado, maiores as chances de evitar complicações associadas à inflamação persistente e melhorar a qualidade de vida.”



