Automutilação na adolescência: o papel crucial da escola na prevenção e acolhimento
A Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) emitiu um alerta em 2025, destacando que os problemas de saúde mental representam 16% das doenças e lesões entre adolescentes em todo o mundo. No Rio de Janeiro, a Secretaria de Estado de Saúde registrou, em 2023, um total de 13.007 notificações de violência autoprovocada, sendo que 25% desses casos envolveram adolescentes. Esses números alarmantes evidenciam um aumento significativo do fenômeno nas últimas décadas, exigindo atenção urgente.
Definição e características da automutilação
O psicólogo clínico americano Matthew Nock, em seu estudo de 2010, definiu a automutilação como todo comportamento intencional que resulta em algum grau de lesão física ou psicológica autoinfligida. Essas lesões podem ser realizadas com ou sem o uso de objetos perfurocortantes, sendo as áreas mais comuns os punhos, antebraços, coxas, barriga e pernas. Em 2020, o Ministério da Saúde lançou a Cartilha para prevenção da automutilação e do suicídio: orientações para educadores e profissionais da saúde, que ressalta a diferença entre autolesão com intenção suicida e sem intenção suicida (ASIS).
As autolesões possuem funções intrapessoais, como buscar alívio da dor emocional, e funções interpessoais, como comunicar sofrimento ou buscar pertencimento a grupos. A automutilação surge como um recurso paradoxal, onde o adolescente busca apaziguar uma dor psíquica insuportável por meio da inflição de dor física.
A adolescência e a transferência do sofrimento para o corpo
A adolescência é um período de transição entre a infância e a vida adulta, marcado pelo desprendimento das figuras parentais e pela busca de inserção em grupos sociais. Esse movimento pode provocar sentimentos de desamparo e angústia, levando o adolescente a transferir seu sofrimento para o corpo, em vez de utilizar a palavra como recurso de expressão. As instituições educativas são fundamentais na construção de laços fora do seio familiar, e é nesse cenário que as automutilações costumam aparecer.
Um fato curioso identificado por pesquisadores é que, embora os cortes sejam frequentemente feitos em casa, é na escola que eles costumam ser notados. Os profissionais da educação são, comumente, os primeiros adultos a perceberem as lesões, devido à sua posição menos comprometida emocionalmente em comparação aos pais. Professores podem detectar mudanças comportamentais repentinas, como tristeza e isolamento, que servem como sinais de alerta.
Estudo sobre a percepção dos profissionais da escola
Um projeto realizado no Laboratório de Estudos em Família e Casal (LEFaC), do Departamento de Psicologia da PUC-Rio, investigou a questão da autolesão em adolescentes a partir da percepção de profissionais que atuam em escolas públicas do estado do Rio de Janeiro. Foram entrevistados 10 profissionais, incluindo professores de diferentes disciplinas, orientadores educacionais e psicólogas.
Os dados elucidaram como a escola maneja o fenômeno da automutilação e os desafios enfrentados pelos educadores. Os resultados evidenciaram o papel amparador da escola e a importância de um trabalho de cuidado em rede, envolvendo família, escola e Estado.
Manejo e desafios enfrentados pelos educadores
Os entrevistados relataram um manejo inicial que envolve acolher o adolescente por meio de uma escuta empática e sem julgamentos, permitindo que o jovem expresse seus sentimentos. Em seguida, destacaram a importância de comunicar à família sobre a automutilação de maneira cuidadosa, para não desencorajar outras buscas por ajuda. A maioria dos participantes declarou que a escola faz a notificação compulsória ao Conselho Tutelar, seguindo a Lei nº 13.819/2019, que institui a Política Nacional de Prevenção da Automutilação e do Suicídio.
Curiosamente, os entrevistados relataram um manejo alinhado com as diretrizes da cartilha do Ministério da Saúde, mesmo sem tê-la mencionado. No entanto, em geral, os educadores alegaram se sentir despreparados para lidar com a problemática, evidenciando a falta de orientação clara e formação continuada sobre saúde mental na escola. Alguns colegas descrevem pejorativamente a automutilação como uma atitude para chamar atenção, o que pode levar à negligência do adulto.
Vínculo como dispositivo de cuidado e sobrecarga dos educadores
Diante do despreparo e da falta de orientação formal, alguns profissionais apostaram na relação afetiva com o estudante como estratégia de manejo e acolhimento, transformando o vínculo em um dispositivo de cuidado. No entanto, essa maior proximidade desencadeou em alguns educadores extrema preocupação e mal-estar, a ponto de necessitarem de acompanhamento psicológico e psiquiátrico, destacando a necessidade de cuidar de quem cuida.
Apesar da disponibilidade, os resultados também mostraram limitações, como a sobrecarga dos educadores, que além das demandas pedagógicas, precisam responder a questões emocionais e psicológicas. Isso aponta para a urgência de construir uma rede de cuidado integrada.
Trabalho de cuidado em rede: escola, família e Estado
A rede proposta no estudo se refere à articulação entre escola, família e Estado, representado por políticas públicas, serviços do Sistema Único de Saúde (SUS) como os Centros de Atenção Psicossocial Infantil (CAPSi), e serviços do Sistema Único de Assistência Social, como os Conselhos Tutelares. Os dados indicam que a relação escola-família pode apresentar tensões devido à confusão de papéis, muitas vezes resultando em uma dinâmica de culpabilização mútua.
Quando o adolescente está em tratamento, a família acaba sendo o canal de comunicação entre a escola e outros profissionais externos, como psicólogos clínicos e psiquiatras. No entanto, na maioria das vezes, as instituições atuam de forma segmentada e pouco dialogada, limitando-se à notificação compulsória e a encaminhamentos burocráticos, o que provoca desassistência à população infantojuvenil.
Fragilidades e necessidade de investimento estatal
A rede pública de ensino sofre com a precarização, incluindo a falta de psicólogos e assistentes sociais nas escolas, apesar de isso estar previsto na lei 13.935/2019. A proposta de um trabalho multiprofissional na educação básica não acontece na prática, evidenciando a fragilidade da relação escola-Estado. É fundamental um investimento estatal na educação, tanto em nível estrutural com recursos humanos, quanto em formação continuada.
A ideia não é tornar o educador um psicoterapeuta, mas oferecer recursos e orientações sobre aspectos psicológicos para que ele consiga manejar casos de autolesão e encaminhá-los adequadamente. É urgente a efetivação das políticas públicas existentes, que propõem a construção de uma rede institucional de cuidado ao adolescente, garantindo um modelo de atenção psicossocial amplo, coletivo e articulado.
Esta pesquisa contou com o financiamento da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - Brasil (Capes).



