Pastores criticam terapia e psicólogos cristãos; CRP veta termo
Pastores criticam terapia e psicólogos cristãos; CRP veta termo

Em um vídeo com milhares de visualizações no YouTube, o pastor Rodrigo Mocellin, líder da Igreja Resgatar, afirma que a psicologia está contra o cristianismo. Para ele, a fé cristã não pode ter parceria com a psicologia, pois são como água e óleo. Já o pastor César Augusto, da Igreja Apostólica Fonte da Vida, sugere que as pessoas consultem Jesus, considerado por ele o maior psicólogo do mundo.

Posição de líderes religiosos

O bispo Walter McAlister, da Igreja Cristã Nova Vida, reconhece que a psicologia tem ajudado o ser humano, mas recomenda que cristãos consultem psicólogos que também sejam cristãos, pois alguns conflitos são de ordem espiritual. O senador Magno Malta (PL-ES) propôs uma frente parlamentar no Senado para defender a liberdade religiosa dos psicólogos cristãos, combatendo supostas restrições impostas por conselhos profissionais.

Visão do Conselho Federal de Psicologia

O Conselho Federal de Psicologia (CFP) afirma que acompanha os debates sobre fé e prática profissional, reafirmando o compromisso com a laicidade do Estado e o respeito à diversidade de crenças. No entanto, ressalta que nenhum profissional deve se apresentar como psicólogo cristão, pois isso pode levar à crença equivocada de que a prática é exclusivista ou baseada em dogmas, contrariando a universalidade da ciência psicológica.

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Incompatibilidade ou complementaridade?

Para especialistas, a dificuldade de diálogo entre cristianismo e psicologia decorre da concorrência pelo objeto de estudo: a psique ou alma humana. O teólogo Pedro Pamplona, autor do livro Cristianismo Leve, entende que terapias psicológicas podem complementar o trabalho espiritual, mas vê incompatibilidades entre a atuação do terapeuta e o aconselhamento religioso. Ele defende que a Bíblia tem uma antropologia própria, que influencia o cuidado com as pessoas.

Por outro lado, a psicóloga Beatriz Breves argumenta que não há incompatibilidade quando a pessoa está segura em sua fé. Para ela, a psicoterapia amplia o autoconhecimento e não interfere na fé. O teólogo Gerson Leite de Moraes critica líderes religiosos que combatem a psicologia por suposta concorrência de mercado, transformando a Bíblia em um livro mágico.

Doutrina da suficiência das Escrituras

A doutrina cristã da suficiência das Escrituras defende que a Bíblia é suficiente para lidar com tudo que tange ao ser humano. No entanto, Pamplona acredita que a interpretação correta é que a Bíblia resolve tudo para a salvação, mas não todos os problemas. Ele alerta que muitos cristãos se sentem culpados por buscar terapia, o que agrava seu sofrimento.

Psicólogos cristãos na prática

O psicólogo Pierre Patrick Pires, fundador da consultoria Atos 20, defende que psicologia e fé são campos distintos, mas não opostos. Para ele, a psicologia não precisa negar a fé, nem a fé precisa negar a psicologia. Já a psicóloga Andréia Aparecida de Melo Coliath concluiu em sua pesquisa que cristãos preferem psicólogos também cristãos, por se sentirem mais seguros.

O pastor Mérlinton de Oliveira, psicólogo e teólogo, afirma que a terapia é compatível com experiências religiosas, desde que cada prática respeite seus métodos. Ele destaca que o código de ética da psicologia determina que o terapeuta deve respeitar a realidade do cliente.

Desafios e controvérsias

A psicóloga e missionária Magali Leoto relata que psicólogos cristãos enfrentam dificuldades com o Conselho Federal de Psicologia, que pode interpretar normas como limitadoras. Ela defende que a psicologia e a fé bíblica se encontram em diversos pontos, trazendo esperança e caminhos para a ressignificação de conflitos.

O senador Magno Malta alega que psicólogos cristãos têm sido notificados por conselhos regionais por manifestarem sua fé em ambientes pessoais ou redes sociais. O CFP, por sua vez, veda práticas que misturam fé e ciência de forma indevida, e reafirma que o termo psicólogo cristão não é reconhecido, pois associar o título profissional a uma vertente religiosa contraria a laicidade da ciência psicológica.

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