Ultraprocessados: crise de saúde pública atinge Brasil e preocupa especialistas
Alimentos ultraprocessados viram caso de saúde pública

A praticidade dos alimentos prontos e embalados conquistou espaço nas rotinas aceleradas, mas um alerta da ciência soa cada vez mais alto. Os produtos ultraprocessados estão no centro de uma crise global de saúde pública, substituindo progressivamente a comida de verdade e elevando os riscos de uma série de doenças crônicas. Evidências científicas robustas e novas diretrizes alimentares internacionais reforçam a urgência de ações individuais e coletivas para reverter esse cenário.

O alerta da ciência: evidências contundentes

Uma série de estudos publicada na renomada revista The Lancet, com participação de pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), trouxe conclusões diretas. As dietas ricas em ultraprocessados degradam os padrões alimentares tradicionais, pioram a qualidade nutricional geral e aumentam significativamente o risco de múltiplas doenças. A base para essa análise é a classificação NOVA, também desenvolvida na USP, que categoriza os alimentos pelo grau de processamento industrial.

O problema, segundo os especialistas, vai além do excesso de sal, açúcar ou gordura. É o conjunto de ingredientes industriais, aditivos e processos que desestruturam a matriz original do alimento, alterando a forma como o nosso organismo metaboliza o que consumimos. Esse alerta ganhou peso extra com a divulgação das novas Diretrizes Alimentares para Americanos 2025-2030, que colocam os alimentos integrais e densos em nutrientes de volta no centro do prato, recomendando a limitação explícita de produtos altamente processados.

Os números do problema e as consequências

A dimensão do desafio é alarmante. Em países como Reino Unido e Estados Unidos, mais de 50% da energia consumida pela população já vem de ultraprocessados. No Brasil e no México, a participação desses produtos na dieta cresceu cerca de 13% nas últimas décadas. Em contrapartida, menos de um quarto dos adultos brasileiros consome a quantidade mínima de frutas e hortaliças recomendada pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

As dietas baseadas nesses produtos tendem a ser mais calóricas e nutricionalmente pobres. A ciência associa seu consumo regular a um maior risco de obesidade, diabetes tipo 2, doenças cardiovasculares, alguns tipos de câncer, depressão e aumento da mortalidade por todas as causas. O tema saiu dos laboratórios e chegou até aos tribunais: em São Francisco, Califórnia, o procurador municipal moveu uma ação contra grandes fabricantes, argumentando que os produtos são projetados para criar dependência e estão deixando a população doente.

Da denúncia à ação: o que pode ser feito?

Especialistas em medicina preventiva, como o médico Gilberto Ururahy, destacam que a combinação de uma alimentação ultraprocessada com sedentarismo, privação de sono e estresse é uma receita para o surgimento de doenças crônicas anos depois. A responsabilidade, porém, não é apenas do indivíduo. É necessária uma ação coordenada em múltiplas frentes.

No âmbito das políticas públicas, medidas essenciais incluem:

  • Rotulagem frontal clara que informe o grau de processamento.
  • Restrição à publicidade dirigida ao público infantil.
  • Revisão do ambiente alimentar em escolas e instituições públicas.
  • Estímulo à produção e ao acesso a alimentos in natura para populações vulneráveis.

No dia a dia, as famílias também têm um espaço de ação importante. Cozinhar mais, mesmo que sejam preparações simples, planejar as refeições e ler atentamente a lista de ingredientes são passos fundamentais para reduzir a dependência dos produtos prontos. Quanto maior a base da alimentação for composta por alimentos de verdade – como grãos, legumes, frutas, verduras e preparações caseiras –, menor será o espaço para os ultraprocessados.

Enfrentar a epidemia de ultraprocessados é um passo crucial para combater a crise global das doenças crônicas. A prevenção efetiva começa nas escolhas diárias à mesa e nas políticas que tornam essas escolhas saudáveis não apenas desejáveis, mas verdadeiramente possíveis para todos.