Dor pélvica crônica: neuromodulação reduz sofrimento em até 80%
Dor pélvica crônica: neuromodulação reduz dor em 80%

A dor pélvica crônica representa um dos maiores desafios da medicina quando o assunto é saúde feminina. Apesar do conhecimento acumulado, a condição sofre com subdiagnóstico, invisibilidade clínica e incorporação tardia de abordagens terapêuticas mais modernas. Caracterizada por dor persistente por mais de seis meses além do período normal de cicatrização, essa condição frequentemente extrapola o campo ginecológico tradicional, envolvendo uma complexa rede do sistema nervoso responsável pela modulação da dor.

Esse equívoco na condução dos casos leva muitas mulheres a um ciclo interminável de tratamentos — medicamentos, fisioterapia, novas cirurgias — sem que o componente neuropático seja devidamente considerado. O resultado é sofrimento prolongado, com graves consequências para a qualidade de vida, saúde mental, produtividade e relações sociais e familiares.

Números alarmantes

Dados epidemiológicos mostram que a dor pélvica crônica responde por cerca de 10% das consultas ginecológicas e pode afetar até 25% das mulheres. O Ministério da Saúde, por sua vez, indica que a dor crônica atinge até 40% da população adulta brasileira, com maior prevalência entre mulheres. Isso configura um problema de saúde pública ainda subestimado.

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Neuromodulação do DRG: nova esperança

A neuromodulação do gânglio da raiz dorsal (DRG) surge como uma mudança de paradigma. Diferente das abordagens convencionais focadas na origem periférica da dor, essa técnica age diretamente na transmissão do estímulo doloroso pelo sistema nervoso. Trata-se de um procedimento minimamente invasivo, no qual um dispositivo implantado emite estímulos elétricos de baixa intensidade para modular os sinais de dor antes que cheguem ao cérebro.

A tecnologia já é validada internacionalmente, com sistemas aprovados por órgãos regulatórios rigorosos. Estudos clínicos demonstram redução da dor superior a 80% em alguns cenários, com melhora consistente em escalas específicas de avaliação. Dados de estudos multicêntricos apontam alívio sustentado por pelo menos 12 meses em parcela significativa dos pacientes.

Critérios e indicações

A indicação da neuromodulação do DRG segue critérios estabelecidos pela literatura internacional e por sociedades como a International Association for the Study of Pain e a European Association of Urology. Entre os requisitos estão: falha dos tratamentos convencionais, presença de componente neuropático e impacto significativo na qualidade de vida. Condições como dor pós-operatória persistente, dor perineal, vulvodínia, neuralgias e síndromes neuropáticas do assoalho pélvico são as que mais podem se beneficiar.

Desafio do acesso

Apesar dos resultados promissores, a neuromodulação ainda não está amplamente disponível na rede pública brasileira. Isso cria uma lacuna entre o que a ciência pode oferecer e o que chega às pacientes. Recentemente, o 17º Congresso Brasileiro de Estereotaxia e Neurocirurgia Funcional promoveu um treinamento multidisciplinar em neuromodulação avançada, refletindo a tendência de integração entre neurocirurgiões, ginecologistas, anestesiologistas e especialistas em dor.

Mudança de mentalidade necessária

É fundamental reconhecer que a dor persistente não é normal e não deve ser naturalizada. A paciente precisa de acolhimento integral, que inclua atenção às dimensões emocionais e de saúde mental. O tratamento atual deve ser multimodal, individualizado e baseado em evidências. A ciência avançou, a tecnologia existe e o conhecimento se expandiu. O grande desafio agora é garantir que essa evolução chegue às mulheres que ainda sofrem em silêncio.

Samantha Condé Rocha Rangel é ginecologista e uroginecologista, doutora pela Unicamp e atual presidente da Academia de Medicina do Rio de Janeiro.

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