China enfrenta crise demográfica 10 anos após fim da política do filho único
Crise demográfica ameaça o "sonho chinês"

Passada uma década desde o fim da Política do Filho Único, a China ainda enfrenta as duras consequências de décadas de controle populacional. O país mergulhou em uma crise demográfica que coloca em risco a realização do chamado "sonho chinês", projeto de grandeza nacional promovido pelo líder Xi Jinping.

Do controle ao colapso: a virada nos números

A política que limitava os casais a ter apenas um filho vigorou por mais de 35 anos, de 1979 até 2016, quando foi autorizado o segundo filho. Em 2021, o limite foi ampliado para três. No entanto, os incentivos não foram suficientes para reverter uma tendência profunda.

Os dados mostram uma inversão dramática. Em 1979, a taxa de natalidade era de 17,8 nascimentos por mil habitantes, contra 6,2 mortes. Em 2024, a mortalidade subiu para 7,8 por mil, superando a taxa de nascimentos, que despencou para 6,8.

Na prática, a China passou de um crescimento natural positivo de 11,6 por mil para um declínio populacional de cerca de -1. "A China enfrenta uma crise demográfica e civilizacional sem precedentes", alerta Yi Fuxian, pesquisador da Universidade de Wisconsin-Madison e autor de "Big Country with an Empty Nest".

O "sonho chinês" e o pesadelo demográfico

Lançado por Xi Jinping em 2012, o "sonho chinês" prega que uma nação jovem é o caminho para a prosperidade e para manter o status de potência global. Em discurso naquele ano, Xi afirmou que o futuro individual está ligado ao da nação.

Contudo, mais de uma década depois, durante as comemorações do aniversário da República Popular em 2024, o próprio líder admitiu que alcançar o "grande rejuvenescimento" ainda é uma "causa sem precedentes" e distante.

Yi Fuxian é direto ao fazer um alerta: "Se esta crise não for resolvida, o chamado 'sonho chinês' não será um sonho de grande rejuvenescimento da nação chinesa, mas um pesadelo de colapso demográfico e civilizacional".

Impacto econômico e futuro incerto

O envelhecimento da população já freia a economia chinesa. Um relatório de 2024 do Banco Mundial aponta que o crescimento médio anual caiu de 10,5% (entre 2003 e 2012) para 6,2% (entre 2013 e 2022).

O documento alerta que, sem políticas eficazes, o fenômeno pode reduzir a força de trabalho, diminuir a poupança das famílias, pressionar as finanças públicas e afetar a produtividade. Reformas na previdência, estímulo ao trabalho feminino e automação industrial são algumas das medidas tentadas, mas ainda insuficientes.

O peso demográfico da China no mundo diminuiu drasticamente. De 34% da população global em 1800, o país passou para cerca de 22% entre 1950 e 1980. Em 2025, estima-se que represente apenas 17%.

As projeções de Yi Fuxian são sombrias: se a taxa de fecundidade se estabilizar em 0,8, a população total chinesa pode cair para 1 bilhão em 2050 (11% do mundo) e para apenas 320 milhões em 2100 (3% do mundo). Este cenário é considerado profundamente desfavorável às ambições de poder do Partido Comunista Chinês.