Um estudo de grande impacto publicado na renomada revista científica The Lancet trouxe uma notícia promissora para a saúde pública brasileira. A pesquisa concluiu que a vacina contra a dengue desenvolvida pelo Instituto Butantan apresenta uma eficácia de 90% na prevenção de casos graves da doença. Os resultados, referentes à terceira fase dos ensaios clínicos, representam um avanço significativo no combate a uma enfermidade que afeta milhares de brasileiros anualmente.
Diferencial da vacina nacional
A principal inovação do imunizante produzido pelo Butantan está no seu esquema vacinal simplificado. Ao contrário de outras opções já disponíveis, que exigem duas doses, a vacina brasileira requer apenas uma única aplicação para conferir imunização. Este é um ponto logístico crucial para campanhas de vacinação em massa no Sistema Único de Saúde (SUS). O imunizante utiliza o vírus vivo da dengue nos testes, uma metodologia consolidada na produção de vacinas.
Contudo, antes de estar disponível para a população, é necessário cumprir uma etapa regulatória fundamental. O Instituto Butantan ainda precisa submeter toda a documentação necessária à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para obter a aprovação comercial. A expectativa é que a distribuição pela rede pública de saúde possa ocorrer ainda este ano, após o aval do órgão regulador.
Contexto: a vacina Qdenga no SUS
Atualmente, o Brasil já conta com outra vacina contra a dengue incorporada ao SUS. Trata-se da Qdenga, desenvolvida pela farmacêutica japonesa Takeda. Em janeiro de 2026, o Ministério da Saúde liberou seu uso para indivíduos com idades entre 4 e 60 anos, mas a disponibilidade no sistema público, por enquanto, está restrita a crianças e adolescentes de 10 a 14 anos.
O esquema vacinal da Qdenga é diferente: são necessárias duas doses aplicadas por via subcutânea, com um intervalo de três meses entre elas. A proteção estimada dura até cinco anos. A vacina foi aprovada pela Anvisa em março de 2023, com base na decisão da Agência Europeia de Medicamentos (EMA), que avaliou dados de 19 estudos envolvendo mais de 28 mil pessoas.
Eficácia e funcionamento da Qdenga
Os ensaios clínicos da Takeda demonstraram que o imunizante preveniu 80,2% dos casos sintomáticos de dengue 12 meses após a vacinação. A proteção contra hospitalizações foi ainda mais expressiva, atingindo 90,4% após 18 meses. Após 4,5 anos, a eficácia para casos sintomáticos caiu para 61%, mas a prevenção de internações se manteve alta, em 84%.
A Qdenga é baseada no vírus vivo e atenuado do sorotipo 2 da dengue, que serve como "espinha dorsal" genética para gerar proteção contra os outros três sorotipos. Esse vírus modificado não é capaz de causar a doença em quem recebe a vacina.
Contraindicações e efeitos colaterais
O imunizante da Takeda não é indicado para todos os públicos. Grávidas, lactantes e pessoas com imunodeficiência (congênita, adquirida ou em terapia imunossupressora) não devem receber a vacina. Indivíduos com HIV sintomático ou assintomático com comprometimento imunológico também estão no grupo de contraindicação.
Quanto aos efeitos adversos, os estudos listam reações comuns, que afetam mais de uma em cada dez pessoas, como dor no local da injeção, dor de cabeça, dores musculares, vermelhidão, mal-estar, fraqueza, infecções nas vias aéreas superiores e febre. Efeitos considerados comuns (até uma em cada dez pessoas) incluem inchaço no local da aplicação, coceira, inflamação de garganta, dor articular e sintomas gripais. Sintomas mais raros, como diarreia e erupções na pele, também foram registrados.
O avanço da vacina do Butantan, com sua promessa de dose única e alta eficácia contra as formas graves, representa mais um capítulo na luta contra a dengue no Brasil. A aprovação da Anvisa será o próximo marco decisivo para que essa ferramenta de prevenção comece a proteger a população.