Estudo Revela que Terapia Hormonal na Menopausa Não Impacta Risco de Demência
Uma pesquisa abrangente publicada na renomada revista científica The Lancet Healthy Longevity chegou a uma conclusão significativa: a terapia hormonal na menopausa (THM) não aumenta nem diminui o risco de demência ou comprometimento cognitivo leve em mulheres que passam por essa fase da vida. O estudo, que analisou dez trabalhos científicos envolvendo mais de um milhão de participantes entre 1º de janeiro de 2000 e 20 de outubro de 2025, oferece novas perspectivas sobre um tema que gerava incertezas na comunidade médica e entre as pacientes.
Metodologia Rigorosa e Resultados Claros
Segundo Melissa Melville, pesquisadora vinculada ao departamento de psicologia clínica, educacional e da saúde da University College London e uma das autoras do trabalho, a prescrição da THM deve focar prioritariamente no alívio de sintomas específicos, como fogachos e insônia, sem a expectativa de oferecer proteção cerebral contra demência. "As mulheres não devem iniciar a THM apenas com o objetivo de reduzir o risco de demência. As decisões sobre THM devem ser baseadas na gravidade dos sintomas e em uma discussão individual dos benefícios e riscos estabelecidos, levando em conta fatores como idade e histórico de saúde", afirma a especialista.
Estudos anteriores haviam sugerido a existência de uma "janela crítica", indicando que iniciar a terapia hormonal mais próximo do início da menopausa poderia influenciar o risco de demência. No entanto, Melville explica que grande parte dessas evidências provém de estudos observacionais, que são propensos a vieses e podem superestimar os efeitos. "Nesta revisão, usamos a metodologia GRADE, uma abordagem mais rigorosa e cautelosa para avaliar a evidência. Quando analisada dessa forma, a maioria daqueles estudos fornece evidência de baixa certeza", destaca a pesquisadora.
Limitações do Estudo e Próximos Passos
A revisão sistemática não abordou sintomas cognitivos como névoa cerebral ou problemas de memória durante a transição menopáusica, que são comuns, mas ficaram fora do escopo da pesquisa. Além disso, nenhum dos estudos analisados examinou o uso de testosterona ou a aplicação da THM em casos de insuficiência ovariana prematura.
Atualmente, a Organização Mundial da Saúde (OMS) não fornece orientações específicas sobre a relação entre terapia hormonal na menopausa e risco de demência, o que contribuiu para a incerteza entre clínicos, mulheres e formuladores de políticas públicas. "Nosso trabalho ajudará a informar as próximas diretrizes da OMS sobre redução do risco de declínio cognitivo e demência, esperadas mais adiante este ano", afirma Melville, destacando a importância do estudo para futuras recomendações globais.
Indicações e Contraindicações da Terapia Hormonal
Nem toda mulher na menopausa deve iniciar tratamento com terapia hormonal, conforme explica Lúcia Helena Paiva, presidente da comissão nacional especializada em climatério da Febrasgo (Federação Brasileira das Associações em Ginecologia e Obstetrícia). Uma contraindicação absoluta é o sangramento de causa desconhecida após um ano sem menstruar, que exige investigação completa antes de qualquer prescrição para descartar problemas graves. "Primeiro a gente precisa saber o que é esse sangramento, para depois ver se realmente ela vai poder ou não fazer reposição hormonal", esclarece a médica.
Paiva ressalta que existem riscos que demandam avaliação individualizada, como o aumento da probabilidade de câncer de mama e trombose. "Explicamos às pacientes de forma clara sobre os riscos e discutimos individualmente", afirma. A THM é reservada principalmente para mulheres que apresentam sintomas intensos do climatério e que podem se beneficiar mais do tratamento.
Benefícios Principais da Terapia
A terapia hormonal é recomendada principalmente para o controle de sintomas vasomotores, como:
- Ondas de calor (fogachos)
- Sudorese noturna
Outras indicações importantes incluem:
- Ressecamento vaginal com dor nas relações sexuais
- Prevenção de perda de massa óssea em mulheres com histórico familiar de osteoporose ou risco inerente à falta de estrogênio pós-menopausa
Benefícios adicionais, embora considerados secundários, abrangem:
- Redução de eventos cardiovasculares
- Melhora do sono
- Aumento da libido
- Alívio de sintomas psicológicos como irritabilidade e ansiedade
"O maior benefício da terapia de reposição hormonal, sem dúvida, é a melhora dos sintomas, principalmente as ondas de calor. Quem tem ondas de calor, fica sem dormir direito por vários dias e acaba ficando mais irritada, cansada e com humor alterado", conclui Paiva, enfatizando o papel central da THM no alívio dos desconfortos mais significativos da menopausa.