Uma descoberta científica revela um mecanismo astuto usado por células cancerígenas para sobreviver aos ataques do nosso próprio sistema de defesa. De acordo com uma reportagem do Science News, baseada em pesquisas recentes de cientistas dos Estados Unidos, alguns tumores utilizam sua capacidade de movimento para escapar da destruição pelos macrófagos, as células "lixeiras" do sistema imunológico.
O mecanismo de fuga: contorção e "mordiscadas"
Os pesquisadores observaram que, ao serem confrontadas por macrófagos, certas células tumorais não ficam paradas. Em vez disso, elas se contorcem e se movem rapidamente. Essa agilidade impede que sejam completamente engolidas no processo chamado fagocitose. O que acontece, na verdade, é que os macrófagos conseguem apenas "mordiscar" as bordas das células do câncer, arrancando fragmentos de sua superfície.
Esse fenômeno foi registrado em detalhes através de microscopia de fluorescência. A consequência direta dessas "mordidas" é crucial: junto com os pedaços de membrana celular, os macrófagos removem sinais químicos que funcionam como um aviso de "coma-me" para o resto do sistema imunológico.
Como o tumor se torna invisível
Sem esses marcadores na superfície, a célula cancerígena que sobreviveu ao ataque fica praticamente invisível para novas investidas das defesas do corpo. Ela perde os sinais que a identificariam como uma ameaça a ser eliminada, permitindo que continue viva e se proliferando.
Os cientistas testaram essa hipótese inicialmente em células de linfoma e, posteriormente, em células de leucemia, conhecidas por sua alta mobilidade. Para confirmar que o movimento era a chave da fuga, os pesquisadores bloquearam a mobilidade dessas células com medicamentos específicos. O resultado foi claro: com a mobilidade reduzida, as células tumorais passaram a ser engolidas com muito mais facilidade pelos macrófagos.
Implicações para o futuro do tratamento
Segundo os autores do estudo, compreender esse novo mecanismo de evasão é um passo importante para o desenvolvimento de novas terapias contra o câncer. A ideia que surge é criar tratamentos que, em vez de atacar diretamente o tumor, limitem a mobilidade das células cancerígenas. Tornando-as mais lentas e menos ágeis, elas se tornariam alvos mais fáceis e vulneráveis para o sistema imunológico do paciente.
Embora as aplicações clínicas dessa descoberta ainda estejam distantes, os achados ajudam a explicar um dos grandes desafios da oncologia moderna: por que algumas imunoterapias não conseguem eliminar totalmente o câncer. A pesquisa abre um caminho promissor para estratégias combinadas e mais eficazes no futuro, potencialmente superando uma das táticas de sobrevivência mais inteligentes dos tumores.
Nota relacionada: Em um caso separado que evidencia a complexidade do combate ao câncer, a Justiça italiana reconheceu uma grave negligência médica. Uma mulher que passou por quatro anos de quimioterapia agressiva descobriu, após todo o tratamento, que nunca teve a doença. O erro de diagnóstico causou danos físicos, psicológicos e sofrimento prolongado. A Justiça fixou uma indenização de 500 mil euros (cerca de R$ 3,15 milhões) para a paciente. O caso foi divulgado em 14 de janeiro de 2026.